O homem e a sua hora
Mário Faustino
Sinto que o mês presente me assassina,
As aves atuais nasceram mudas
E o tempo na verdade tem domínio
Sobre homens nus ao sul das luas curvas.
Sinto que o mês presente me assassina,
Corro despido atrás de um cristo preso,
Cavalheiro gentil que me abomina
E atrai-me ao despudor da luz esquerda
Ao beco de agonia onde me espreita
A morte espacial que me ilumina.
Sinto que o mês presente me assassina
E o temporal ladrão rouba-me as fêmeas
De apóstolos marujos que me arrastam
Ao longo da corrente onde blasfemas
Gaivotas provam peixes de milagre.
Sinto que o mês presente me assassina,
Há luto nas rosáceas desta aurora,
Há sinos de ironia em cada hora
(Na libra escorpiões pesam-me a sina)
Há panos de imprimir a dura face
À força de suor, de sangue e chaga.
sexta-feira, 27 de setembro de 2002
HAICAIS
Matsuo Bashô
1644 - 1694
Quebrando o silêncio
do charco antigo a rã salta
n'água - ressoar fundo.
*
Não ver tinha graça
o Fuii-Yama escondido
na névoa da chuva.
*
Qual velha sem dentes
a cerejeira sem folhas
juvenil floresce.
*
Amigos, adeus:
tal como os gansos selvagens
perdidos nas nuvens.
*
Um gato maltês
pela racha na lareira
foi ter com a amada.
*
Na primeira chuva
do inverno mesmo o macaco
sonhará ter capa.
*
Mal pensas na morte
que cedo espreita: as cigarras
cantam no arvoredo.
*
Um branco narciso
e um branco biombo se refletem
na sala quieta.
*
Para ver o que dá
de lavar gosto o pó do mundo
nas gotas de orvalho.
*
No mar que escurece
grita voando o pato:
é o que se vê: suave branco.
*
Primavera: até
montes sem nome se enfeitam
de véus matinais.
*
Sem nada, ainda piolhos
da minha viagem passeiam
no estival quimono.
*
Fiquei aterrado
ouvindo um grilo cantar
dentro do elmo antigo.
*
Bendito este vale
onde o vento suave cheira
vagamente a neve.
*
Tinha dó o poeta antigo
dos macacos que gritavam.
E a criança no vento?
*
Na manhã de neve
aqui estou só ruminando
salmão seco e duro.
*
Recordação de Edo:
este vento frio e fresco
que guardo no leque.
*
Alta brilha a lua
Enquanto o verme escondido
A castanha rói.
*
Quando se calou
o gato desesperado,
no quarto entra o luar.
*
Todo o imenso dia
a cotovia cantou.
lnda insatisfeita?
*
(tradução de Jorge de Sena)
*
Quatro horas soaram.
Levantei-me nove vezes
Para ver a lua.
*
Fecho a minha porta.
Silencioso vou deitar-me.
Prazer de estar só...
*
A cigarra... Ouvi:
Nada revela em seu canto
Que ela vai morrer.
*
Quimonos secando
Ao sol. Oh aquela manguinha
Da criança morta!
Matsuo Bashô
1644 - 1694
Quebrando o silêncio
do charco antigo a rã salta
n'água - ressoar fundo.
*
Não ver tinha graça
o Fuii-Yama escondido
na névoa da chuva.
*
Qual velha sem dentes
a cerejeira sem folhas
juvenil floresce.
*
Amigos, adeus:
tal como os gansos selvagens
perdidos nas nuvens.
*
Um gato maltês
pela racha na lareira
foi ter com a amada.
*
Na primeira chuva
do inverno mesmo o macaco
sonhará ter capa.
*
Mal pensas na morte
que cedo espreita: as cigarras
cantam no arvoredo.
*
Um branco narciso
e um branco biombo se refletem
na sala quieta.
*
Para ver o que dá
de lavar gosto o pó do mundo
nas gotas de orvalho.
*
No mar que escurece
grita voando o pato:
é o que se vê: suave branco.
*
Primavera: até
montes sem nome se enfeitam
de véus matinais.
*
Sem nada, ainda piolhos
da minha viagem passeiam
no estival quimono.
*
Fiquei aterrado
ouvindo um grilo cantar
dentro do elmo antigo.
*
Bendito este vale
onde o vento suave cheira
vagamente a neve.
*
Tinha dó o poeta antigo
dos macacos que gritavam.
E a criança no vento?
*
Na manhã de neve
aqui estou só ruminando
salmão seco e duro.
*
Recordação de Edo:
este vento frio e fresco
que guardo no leque.
*
Alta brilha a lua
Enquanto o verme escondido
A castanha rói.
*
Quando se calou
o gato desesperado,
no quarto entra o luar.
*
Todo o imenso dia
a cotovia cantou.
lnda insatisfeita?
*
(tradução de Jorge de Sena)
*
Quatro horas soaram.
Levantei-me nove vezes
Para ver a lua.
*
Fecho a minha porta.
Silencioso vou deitar-me.
Prazer de estar só...
*
A cigarra... Ouvi:
Nada revela em seu canto
Que ela vai morrer.
*
Quimonos secando
Ao sol. Oh aquela manguinha
Da criança morta!
HAICAIS
Matsuo Bashô
1644 - 1694
O velho tanque
Uma rã mergulha
dentro de si
*
Não esqueças nunca
o gosto solitário
do orvalho
*
Flores de cerejeira no céu escuro
E entre elas a melancolia
quase a florir
*
Extingue-se o dia
mas não o canto
da cotovia
*
Ervas daninhas no arrozal
Depois de cortadas -
fertilizante
*
Lua cheia:
para repousar os olhos
uma nuvem de tempos a tempos
*
Depressa se vai a primavera
Choram os pássaros e há lágrimas
nos olhos dos peixes
*
Preso na cascata
um instante:
o verão
*
Um pimentão
Junta-lhe duas asas:
uma libélula
*
Silêncio:
as cigarras escutam
o canto das rochas
*
A pequena lagarta
vê passar o outono
sem pressa de se tornar borboleta
*
Porta fechada
deito-me no silêncio
Prazer da solidão
Matsuo Bashô
1644 - 1694
O velho tanque
Uma rã mergulha
dentro de si
*
Não esqueças nunca
o gosto solitário
do orvalho
*
Flores de cerejeira no céu escuro
E entre elas a melancolia
quase a florir
*
Extingue-se o dia
mas não o canto
da cotovia
*
Ervas daninhas no arrozal
Depois de cortadas -
fertilizante
*
Lua cheia:
para repousar os olhos
uma nuvem de tempos a tempos
*
Depressa se vai a primavera
Choram os pássaros e há lágrimas
nos olhos dos peixes
*
Preso na cascata
um instante:
o verão
*
Um pimentão
Junta-lhe duas asas:
uma libélula
*
Silêncio:
as cigarras escutam
o canto das rochas
*
A pequena lagarta
vê passar o outono
sem pressa de se tornar borboleta
*
Porta fechada
deito-me no silêncio
Prazer da solidão
quinta-feira, 26 de setembro de 2002
Os Rubaiyat de Omar Khayyam
(versão em português de Afredo Braga)
1
Nunca murmurei uma prece,
nem escondi os meus pecados.
Ignoro se existe uma Justiça, ou Misericórdia;
mas não desespero: sou um homem sincero.
2
O que vale mais? Meditar numa taverna,
ou prosternado na mesquita implorar o Céu?
Não sei se temos um Senhor,
nem que destino me reservou.
3
Olha com indulgência aqueles que se embriagam;
os teus defeitos não são menores.
Se queres paz e serenidade, lembra-te
da dor de tantos outros, e te julgarás feliz.
4
Que o teu saber não humilhe o teu próximo.
Cuidado, não deixes que a ira te domine.
Se esperas a paz, sorri ao destino que te fere;
não firas ninguém.
5
Busca a felicidade agora, não sabes de amanhã.
Apanha um grande copo cheio de vinho,
senta-te ao luar, e pensa:
Talvez amanhã a lua me procure em vão.
6
Não procures muitos amigos, nem busques prolongar
a simpatia que alguém te inspirou;
antes de apertares a mão que te estendem,
considera se um dia ela não se erguerá contra ti.
7
Alcorão, o livro supremo, pode ser lido às vezes,
mas ninguém se deleita sempre em suas páginas.
No copo de vinho está gravado um texto de adorável
sabedoria que a boca lê, a cada vez com mais delícia.
8
Há muito tempo, esta ânfora foi um amante,
como eu: sofria com a indiferença de uma mulher;
a asa curva no gargalo é o braço que enlaçava
os ombros lisos da bem amada.
9
Que pobre o coração que não sabe amar
e não conhece o delírio da paixão.
Se não amas, que sol pode te aquecer,
ou que lua te consolar?
10
Hoje os meus anos reflorescem.
Quero o vinho que me dá calor.
Dizes que é amargo? Vinho!
Que seja amargo, como a vida.
11
É inútil a tua aflição;
nada podes sobre o teu destino.
Se és prudente, toma o que tens à mão.
Amanhã... que sabes do amanhã?
12
Além da Terra, pelo Infinito,
procurei, em vão, o Céu e o Inferno.
Depois uma voz me disse:
Céu e Inferno estão em ti.
13
Não vamos falar agora, dá-me vinho. Nesta noite
a tua boca é a mais linda rosa, e me basta.
Dá-me vinho, e que seja vermelho como os teus lábios;
o meu remorso será leve como os teus cabelos.
14
Tenho igual desprezo por libertinos ou devotos.
Quem irá dizer se terão o Céu ou o Inferno?
Conheces alguém que visitou esses lugares?
E ainda queres encher o mar com pedras?
15
Na sombra azulada do jardim
o ar da primavera renova as rosas
e ilumina os meigos olhos da minha amada.
Ontem, amanhã... é tão grande o prazer agora.
16
Bebo, mas não sei quem te fez, ó grande ânfora;
podes conter três medidas de vinho, mas um dia
a Morte te quebrará. Numa outra hora perguntarei
como foste criada, se foste feliz, ou por que serás pó.
17
Como o rio, ou como o vento,
vão passando os dias.
Há dois dias que me são indiferentes:
O que foi ontem, o que virá amanhã.
18
Não me lembro do dia em que nasci;
não sei em que dia morrerei.
Vem, minha doce amiga, vamos beber desta taça
e esquecer a nossa incurável ignorância.
19
Khayyam, enquanto erguias a tenda da Sabedoria,
caíste na fogueira da dor; agora és cinzas.
O Anjo Azrail cortou as cordas da tua tenda
e a Morte vendeu-a por uma ninharia.
20
É inútil te afligires por teres pecado;
também é inútil a tua contrição:
além da morte estará o Nada,
ou a Misericórdia.
21
Cristãos, judeus, muçulmanos, rezam,
com medo do inferno; mas se realmente soubessem
dos segredos de Deus, não iam plantar
as mesquinhas sementes do medo e da súplica.
22
Na estação das rosas procuro um campo florido
e sento-me à sombra com uma linda mulher;
não cuido da minha salvação: tomo o vinho
que ela me oferece; senão, o que valeria eu?
23
O vasto mundo: um grão de areia no espaço.
A ciência dos homens: palavras. Os povos,
os animais, as flores dos sete climas: sombras.
O profundo resultado da tua meditação: nada.
24
Eu estava com sono e a Sabedoria me disse:
A rosa da felicidade não se abre para quem dorme;
por quê te entregares a esse irmão da morte?
Bebe vinho; tens tantos séculos para dormir.
25
Admito que já resolveste o enigma da Criação;
e o teu destino? Aceito que desvendaste a Verdade;
e o teu destino? Está bem, viveste cem anos felizes
e ainda tens muitos para viver; e o teu destino?
26
Ninguém desvendará o Mistério. Nunca saberemos
o que se oculta por trás das aparências.
As nossas moradas são provisórias, menos aquela última.
Não vamos falar, toma o teu vinho.
27
Olha, um dia a alma deixará o teu corpo
e ficarás por trás do véu, entre o Universo
e o desconhecido. Enquanto não chega a hora,
procura ser feliz. para onde irás depois?
28
Os sábios mais ilustres caminharam nas trevas da ignorância,
e eram os luminares do seu tempo.
O que fizeram? Balbuciaram algumas frases confusas,
e depois adormeceram, cansados.
29
A vida é um jogo monótono que dá dois prêmios:
A Dor e a Morte.
Feliz a criança que expirou ao nascer;
mais feliz quem não veio ao mundo.
30
Na feira que atravessas não procures amigos
ou abrigo seguro. Aceita a dor que não tem remédio
e sorri ao infortúnio; não esperes que te sorriam:
Seria tempo perdido.
31
O mundo gira, distraído dos cálculos dos sábios.
Renuncia à vaidade de contar os astros
e lembra-te: vais morrer, não sonharás mais,
e os vermes da terra cuidarão do teu cadáver.
32
Aquele que criou o Universo e as estrelas
exagerou quando inventou a dor.
Lábios vermelhos como rubis, cabelos perfumados,
quantos sois no mundo?
33
Velho mundo sob o passo do cavalo branco e negro
dos dias e das noites, és o palácio triste onde mil Djenchids
sonharam com a glória e mil Bahrams com o amor,
e a cada manhã acordavam chorando.
34
Sono sobre a terra, sono debaixo da terra.
Sobre a terra, sob a terra: homens deitados.
Nada em toda a parte. Deserto.
Homens chegam, outros partem.
35
Enquanto o rouxinol lhe entoava um hino,
murchou a bela rosa por causa do vento sul.
Lamentaremos por ela ou por nós?
Quando morrermos, outra rosa desabrochará.
36
Se não tiveste a recompensa que merecias,
não te importes, não esperes nada;
já estava tudo nas páginas daquele livro
que o vento da eternidade vai virando ao acaso.
37
Quando me falam das delícias que na outra vida
os eleitos irão gozar, respondo:
Confio no vinho, não em promessas;
o som dos tambores só é belo ao longe.
38
Bebe vinho, ele te devolverá a mocidade,
a divina estação das rosas, da vida eterna,
dos amigos sinceros. Bebe, e desfruta
o instante fugidio que é a tua vida.
39
Bebe o teu vinho. Vais dormir muito tempo
debaixo da terra, sem amigos, sem mulheres.
Confio-te um grande segredo:
As tulipas murchas não reflorescem mais.
40
Baixinho a argila dizia
ao oleiro que a torneava:
Já fui como tu, não te esqueças,
não me maltrates.
41
Oleiro, vai com cuidado, trata bem a argila
com que Adão foi conformado.
Vejo no torno que moves a mão de Feridun,
o coração de Khosru... o que fizeste?
42
A tulipa rubra nasce no campo que foi regado
pelo sangue de um altivo rei.
A violeta brota do sinal de beleza que palpitava
na face de uma doce adolescente.
43
Há tanto tempo giram os astros no espaço;
há tanto tempo se revezam os dias e as noites.
Anda de leve na terra, talvez aonde vais pisar
ainda estejam os olhos meigos de um adolescente.
44
As raízes do narciso que se inclina suave,
bebem a vida nos lábios mortos de uma mulher.
pisa leve a relva macia, ela nasce das cinzas
de rostos tão belos quanto as tulipas.
45
O oleiro ia modelando as alças e os contornos
de uma ânfora. O barro que ele conformava
era feito de crânios de sultões
e mãos de mendigos.
46
O bem e o mal se entrelaçam no mundo.
Não agradeças ao Céu
pela sorte que te coube, nem o acuses:
Ele é indiferente.
47
Se em teu coração cultivaste a rosa do amor,
quer tenhas procurado ouvir a voz de Deus,
ou esgotado a taça do prazer,
a tua vida não foi em vão.
48
Vai com prudência, viajante.
A estrada é perigosa, a adaga do destino
é acerada. Não colhas as amêndoas doces,
são venenosas.
49
Um jardim florido, uma bela mulher, e vinho.
Eis o meu prazer e a minha amargura,
o meu paraíso e o meu inferno.
Mas quem sabe o que é Céu e o que é Inferno?
50
Com a tua face como a rosa, com o teu rosto belo,
como o de um ídolo chinês, não sabes
o que o teu olhar faz do rei da Babilônia?
Um bispo do xadrez, que foge da rainha.
51
A vida passa. O que resta de Bagdad e Balk?
A aragem mais leve é fatal à rosa já desabrochada.
Bebe o vinho, e contempla a lua:
lembra-te das civilizações que ela já viu morrer.
52
Ouve o que a Sabedoria diz todos os dias:
A vida é breve.
Não te esqueças, não és como certas plantas
que rebrotam depois de cortadas.
53
Mestres e sábios morreram
sem se entenderem sobre o Ser e o Não Ser.
Nós, ignorantes, vamos apanhar as tenras uvas;
que os grandes homens se regalem com as passas.
54
O meu nascimento não aumentou o Universo,
nem a minha morte lhe fanará o esplendor.
Ninguém me dirá por quê vim ao mundo,
ou porquê um dia irei embora.
55
Iremos nos perder na estrada do amor,
e o destino nos pisará, indiferente.
Vem, menina, taça encantada, dá-me de beber
em teus lábios, antes que eu me torne pó.
56
Só de nome conhecemos a felicidade.
O nosso melhor amigo é o vinho;
afaga a única que te é fiel: a ânfora,
cheia do sangue das vinhas.
57
Não te inquietes, a vida é como um suspiro.
As cinzas de Djenchid e de Kai-Kobad volteiam
na poeira vermelha que tolda o ar.
O Universo é uma miragem, a vida é um sonho.
58
Senta-te e bebe, felicidade que Mahmud não teve.
Escuta os sussuros dos amantes, são os Salmos de Davi.
Não te importes com o passado, não sondes o futuro,
não percas este instante: Eis a paz.
59
Pessoas presunçosas e obtusas inventaram
diferenças entre o corpo e a alma.
Sei apenas que o vinho apaga as angústias
que nos atormentam, e nos devolve a calma.
60
Que enigma os astros que andam pelo espaço.
Agarra-te à corda da sabedoria, Khayyam.
presta atenção à vertigem
que faz cair perto de ti os teus companheiros.
61
Não temo a morte. prefiro esse ato inelutável
ao outro que me foi imposto no dia em que nasci.
O que é a vida, afinal? Um bem que me confiaram
sem me consultarem e que entregarei com indiferença.
62
Estou velho, e a paixão que me inspiraste
vai me levar ao túmulo: não cesso de encher a taça.
Esta paixão tem razão contra mim:
o tempo estraga a minha bela rosa.
63
Podes me perseguir, miragem de outra ventura,
podes modular a tua voz, mas só escuto aquela
que já me encantou. Dizem-me: Deus te perdoará.
Recuso o perdão que não pedi.
64
Um pouco de pão, um pouco de água,
a sombra de uma árvore, e o teu olhar;
nenhum sultão é mais feliz do que eu,
e nenhum mendigo é mais triste.
65
Tantos carinhos, tantas delícias,
tanta ternura no começo do nosso amor.
Mas agora o teu prazer
é dilacerar o meu coração. por quê?
66
Vinho, bálsamo para o meu coração doente,
vinho da cor das rosas, vinho perfumado
para calar a minha dor. Vinho, e o teu alaúde
de cordas de seda, minha amada.
67
Falam de um Criador...
e Ele deu forma às criaturas para destruí-las?
por que são feias? por que são belas?
Quem é o responsável? Não compreendo nada.
68
Todos pretendem andar pelo Caminho do Saber.
Uns o procuram, outros afirmam tê-lo encontrado.
Um dia uma grande voz dirá: Não há caminho,
nem atalho.
69
Brinda ao resplendor da aurora, e dedica
o vinho vermelho desta taça, em forma de chama,
ou de tulipa, ao sorriso meigo de algum adolescente.
Bebe, e esquece que o punho da dor te prostrará.
70
Vinho! Que palpite em minhas veias,
que inunde a minha cabeça. Silêncio!
Tudo é mentira. Copos! Depressa!
Envelheci muito.
71
Do meu túmulo virá um tal perfume de vinho
que embriagará os que por lá passarem,
e uma tal serenidade vai pairar ali,
que os amantes não quererão se afastar.
72
No turbilhão da vida são felizes aqueles
que presumindo saber tudo não se instruem.
Fui buscar os segredos do Universo e voltei
invejando os cegos que encontrei pelo caminho.
73
Alguns amigos me dizem: Não bebas mais Khayyam.
Respondo: Quando bebo, ouço o que me dizem
as rosas, as tulipas, os jasmins;
ouço até o que não me diz a minha amada.
74
Em que pensas? Nos que já morreram? São pó no pó.
pensas nas virtudes que tiveram? Sim? Deixa-me sorrir.
Toma este copo, vamos beber; ouve sem inquietação
o vasto Silêncio do Universo.
75
Não faças planos para amanhã.
Sabes se poderás terminar a frase que vais dizer?
Talvez amanhã estejamos tão longe deste albergue,
como os outros que já se foram há sete mil anos.
76
Conquistador de corações, belo moço
de olhos brilhantes e altivo semblante,
senta-te e apanha um copo. Eu te contemplo,
e penso na ânfora que serás um dia.
77
Há muito tempo a minha mocidade se foi.
primavera da minha vida, passaste como passaram
as outras primaveras: sem que eu percebesse.
partiste, como se vão os melhores dias.
78
Sente todos os perfumes, todas as cores,
todas as músicas; ama todas as mulheres.
Lembra-te que a vida é breve,
e que breve voltarás ao pó.
79
Não terás paz na terra, e é tolice acreditar
no repouso eterno. Depois da morte
teu sono será breve: renascerás na erva
que será pisada, ou na flor que murchará.
80
O que realmente possuo?
O que restará de mim depois da morte?
É tão breve a vida, uma fogueira:
Chamas, e depois, cinzas.
81
Convicção e dúvida, erro e verdade:
são palavras, como bolhas de ar;
brilhantes, ou baças: vazias,
como a existência dos homens.
82
Escuta, isto ninguém te contou:
Quando a primeira alba clareou o mundo,
Adão já era uma criatura dolorosa,
que pedia a noite, ansiava a morte.
83
Não pedi para nascer. Recebo, sem espanto ou ira,
o que a vida me entrega. Um dia hei de partir;
não me importa saber qual o motivo
da minha misteriosa passagem pelo mundo.
84
Colhe os frutos que a vida te oferece
e escolhe as taças maiores;
não creias que Deus vá fazer as contas
dos teus vícios e das tuas virtudes.
85
Os meus cabelos estão brancos,
tenho setenta anos de idade.
Agarro agora a felicidade; amanhã,
talvez não me restem forças.
86
Nunca procurei saber onde encontrar
o manto da mentira e do ardil,
mas sempre andei à procura
dos melhores vinhos.
87
Alguns sábios da Grécia sabiam propor enigmas?
É absoluta a minha indiferença por tanta inteligência.
Dá-me vinho, minha amiga; deixa-me ouvir o alaúde,
olha como lembra o vento que passa, como nós.
88
É o mês do Ramadã. Amanhã o sol
vai iluminar uma cidade silenciosa;
os vinhos dormirão em suas urnas
e as mulheres à sombra dos bosques.
89
Somos os peões deste jogo do xadrez
que Deus trama. Ele nos move, lança-nos
uns contra os outros, nos desloca, e depois
nos recolhe, um a um, à Caixa do Nada.
90
A abóbada celeste se parece a uma taça emborcada;
sob ela, em vão, erram os sábios.
Ama a tua amada como a ânfora ama o copo;
olha, boca a boca, ela lhe dá o seu próprio sangue.
91
O amor que não consome, não é amor;
a brasa tem o mesmo calor de uma fogueira?
Aquele que ama, pelas noites e dias,
vai se consumindo no prazer e na dor.
92
Não aprendeste nada com os sábios,
mas o roçar dos lábios de uma mulher em teu peito
pode te revelar a felicidade.
Tens os dias contados. Toma vinho.
93
O vinho dá-te o calor que não tens;
suaviza o jugo do passado e te alivia
das brumas do futuro; inunda-te de luz
e te liberta desta prisão.
94
Nunca rezei nas mesquitas, mas antes
ainda sentia uma tênue esperança.
Agora gosto de me sentar lá;
aquela sombra é propícia ao sono.
95
Na terra cheia de cores alguém caminha:
não é muçulmano, não é infiel, nem pobre, nem rico;
não acredita na Verdade e não afirma nada.
Quem é esse, intrépido e triste?
96
Um dia pedi a um velho sábio
que me falasse sobre os que já se foram.
Ele disse:
Não voltarão. Eis o que sei.
97
Olha, a rosa estremece ao sopro do vento;
um pássaro entoa um hino; uma nuvem paira.
Bebe, e esquece que o vento vai ressecar a rosa,
levar a nuvem refrescante e o canto do rouxinol.
98
Onde estão os nossos amigos? Já morreram?
Ainda os ouço na taverna...
já se foram? ou estarão embriagados
de tanto terem vivido?
99
Quando eu não mais viver, não haverá mais rosas,
nem lábios vermelhos, nem vinhos perfumados;
não haverá auroras, nem amores, nem penas:
o Universo terá acabado, pois ele é o meu pensamento.
100
Podes sondar a profunda noite que nos envolve
e ir pelo mistério adentro. Em vão.
Adão, Eva, como deve ter sido amargo aquele beijo
que nos gerou tão desesperançados.
101
Cansado de perguntar aos sábios, perguntei à taça:
para onde irei depois da morte?
Ela me respondeu baixinho: Bebe em minha boca,
bebe longamente: não voltarás.
102
Eu estava numa olaria e mil ânforas murmuravam.
Então uma delas disse: Silêncio, deixem
que esse homem se lembre dos oleiros
e dos compradores de ânforas que já fomos.
103
Nesta noite caem pétalas das estrelas,
mas o meu jardim ainda não está coberto delas.
Assim como o céu derrama flores sobre a terra,
verto em minha taça o vinho da cor das rosas.
104
Queres saber como será o amanhã? Tolice.
Confia, ou o fado justificará os teus receios.
Não te apegues, não questiones livros nem pessoas,
nosso destino é insondável.
105
A aurora encheu de rosas a taça do céu,
e o último rouxinol canta o seu meigo canto;
e ainda há quem pense em honras e glórias...
Vem, menina... que sedosos são os teus cabelos...
106
Vai um cavaleiro pelas sombras do entardecer.
Aonde irá, por serras e por vales?
e onde estará deitado amanhã?
Sobre a terra, ou debaixo dela?
107
O vinho é da cor das rosas;
talvez não seja o sangue das uvas, mas das rosas;
e o azul desta taça talvez seja o céu cristalizado;
e não seria a noite a pálpebra do dia?
108
Mais outra aurora. Como em todas as manhãs,
deparo a beleza do mundo, e não posso agradecer:
há tantas rosas, tantos lábios. Vem minha amiga,
pousa o teu alaúde, os pássaros estão cantando.
109
Homem ingênuo, pensas que és sábio
e estás sufocado entre os dois infinitos
do passado e do futuro. Não podes sair.
Bebe, e esquece a tua impotência.
110
O que farei hoje? Ir à taverna? Ler um livro?
Um pássaro passa. Aonde irá? Já não o vejo.
Embriaguez de uma ave no céu azul e morno;
melancolia de um homem que ainda se lembra.
111
Mais vinho, minha amiga,
as tuas faces ainda não estão rosadas.
Um pouco mais de tristeza, Khayyam,
tua amada vai te olhar, vai sorrir.
112
Não tragam lâmpadas, os meus amigos adormeceram;
estão imóveis, pálidos, como ficarão no túmulo.
Não tragam as lâmpadas,
os mortos não precisam delas.
113
Estudei muito e tive mestres eminentes
e me orgulhava dos meus progressos e triunfos.
Agora lembro-me do sábio que eu era: era como a água
que toma a forma do vaso, como a fumaça ao vento.
114
Guardo as minhas tristezas como a ave
se esconde para morrer. Dá-me vinho, minha amiga,
e escuta os meus gracejos: Vinho, rosas, lábios,
e a tua indiferença pela minha dor.
115
Despe-te dessas roupas que te envaidecem
e que não trazias ao nascer;
os teus conhecidos não te cumprimentarão mais,
mas em teu peito cantarão os Serafins do céu.
116
Aconteceu o que eu já esperava: Ela me deixou.
Quando eu a tinha era tão fácil a renúncia;
junto dela, como estavas só, Khayyam;
ela se foi para te refugiares nela.
117
Ah, Senhor, destruíste a minha alegria,
ergueste uma muralha entre mim e a minha amada,
pisaste a minha bela seara; vou morrer,
e Tu, cambaleias, embriagado.
118
Silêncio, dor da minha alma,
deixa-me procurar um remédio.
É preciso viver; os mortos não se lembram
e eu quero rever a minha amada.
119
É grande a tua dor? Não lhe dês atenção.
Lembra-te dos outros que sofrem inutilmente.
procura uma linda mulher; mas cuidado, evita amá-la,
e ela, que não te ame.
120
Rosas, taças, lábios vermelhos:
brinquedos que o Tempo estraga;
estudo, meditação, renúncia:
cinzas que o Tempo espalha.
(versão em português de Afredo Braga)
1
Nunca murmurei uma prece,
nem escondi os meus pecados.
Ignoro se existe uma Justiça, ou Misericórdia;
mas não desespero: sou um homem sincero.
2
O que vale mais? Meditar numa taverna,
ou prosternado na mesquita implorar o Céu?
Não sei se temos um Senhor,
nem que destino me reservou.
3
Olha com indulgência aqueles que se embriagam;
os teus defeitos não são menores.
Se queres paz e serenidade, lembra-te
da dor de tantos outros, e te julgarás feliz.
4
Que o teu saber não humilhe o teu próximo.
Cuidado, não deixes que a ira te domine.
Se esperas a paz, sorri ao destino que te fere;
não firas ninguém.
5
Busca a felicidade agora, não sabes de amanhã.
Apanha um grande copo cheio de vinho,
senta-te ao luar, e pensa:
Talvez amanhã a lua me procure em vão.
6
Não procures muitos amigos, nem busques prolongar
a simpatia que alguém te inspirou;
antes de apertares a mão que te estendem,
considera se um dia ela não se erguerá contra ti.
7
Alcorão, o livro supremo, pode ser lido às vezes,
mas ninguém se deleita sempre em suas páginas.
No copo de vinho está gravado um texto de adorável
sabedoria que a boca lê, a cada vez com mais delícia.
8
Há muito tempo, esta ânfora foi um amante,
como eu: sofria com a indiferença de uma mulher;
a asa curva no gargalo é o braço que enlaçava
os ombros lisos da bem amada.
9
Que pobre o coração que não sabe amar
e não conhece o delírio da paixão.
Se não amas, que sol pode te aquecer,
ou que lua te consolar?
10
Hoje os meus anos reflorescem.
Quero o vinho que me dá calor.
Dizes que é amargo? Vinho!
Que seja amargo, como a vida.
11
É inútil a tua aflição;
nada podes sobre o teu destino.
Se és prudente, toma o que tens à mão.
Amanhã... que sabes do amanhã?
12
Além da Terra, pelo Infinito,
procurei, em vão, o Céu e o Inferno.
Depois uma voz me disse:
Céu e Inferno estão em ti.
13
Não vamos falar agora, dá-me vinho. Nesta noite
a tua boca é a mais linda rosa, e me basta.
Dá-me vinho, e que seja vermelho como os teus lábios;
o meu remorso será leve como os teus cabelos.
14
Tenho igual desprezo por libertinos ou devotos.
Quem irá dizer se terão o Céu ou o Inferno?
Conheces alguém que visitou esses lugares?
E ainda queres encher o mar com pedras?
15
Na sombra azulada do jardim
o ar da primavera renova as rosas
e ilumina os meigos olhos da minha amada.
Ontem, amanhã... é tão grande o prazer agora.
16
Bebo, mas não sei quem te fez, ó grande ânfora;
podes conter três medidas de vinho, mas um dia
a Morte te quebrará. Numa outra hora perguntarei
como foste criada, se foste feliz, ou por que serás pó.
17
Como o rio, ou como o vento,
vão passando os dias.
Há dois dias que me são indiferentes:
O que foi ontem, o que virá amanhã.
18
Não me lembro do dia em que nasci;
não sei em que dia morrerei.
Vem, minha doce amiga, vamos beber desta taça
e esquecer a nossa incurável ignorância.
19
Khayyam, enquanto erguias a tenda da Sabedoria,
caíste na fogueira da dor; agora és cinzas.
O Anjo Azrail cortou as cordas da tua tenda
e a Morte vendeu-a por uma ninharia.
20
É inútil te afligires por teres pecado;
também é inútil a tua contrição:
além da morte estará o Nada,
ou a Misericórdia.
21
Cristãos, judeus, muçulmanos, rezam,
com medo do inferno; mas se realmente soubessem
dos segredos de Deus, não iam plantar
as mesquinhas sementes do medo e da súplica.
22
Na estação das rosas procuro um campo florido
e sento-me à sombra com uma linda mulher;
não cuido da minha salvação: tomo o vinho
que ela me oferece; senão, o que valeria eu?
23
O vasto mundo: um grão de areia no espaço.
A ciência dos homens: palavras. Os povos,
os animais, as flores dos sete climas: sombras.
O profundo resultado da tua meditação: nada.
24
Eu estava com sono e a Sabedoria me disse:
A rosa da felicidade não se abre para quem dorme;
por quê te entregares a esse irmão da morte?
Bebe vinho; tens tantos séculos para dormir.
25
Admito que já resolveste o enigma da Criação;
e o teu destino? Aceito que desvendaste a Verdade;
e o teu destino? Está bem, viveste cem anos felizes
e ainda tens muitos para viver; e o teu destino?
26
Ninguém desvendará o Mistério. Nunca saberemos
o que se oculta por trás das aparências.
As nossas moradas são provisórias, menos aquela última.
Não vamos falar, toma o teu vinho.
27
Olha, um dia a alma deixará o teu corpo
e ficarás por trás do véu, entre o Universo
e o desconhecido. Enquanto não chega a hora,
procura ser feliz. para onde irás depois?
28
Os sábios mais ilustres caminharam nas trevas da ignorância,
e eram os luminares do seu tempo.
O que fizeram? Balbuciaram algumas frases confusas,
e depois adormeceram, cansados.
29
A vida é um jogo monótono que dá dois prêmios:
A Dor e a Morte.
Feliz a criança que expirou ao nascer;
mais feliz quem não veio ao mundo.
30
Na feira que atravessas não procures amigos
ou abrigo seguro. Aceita a dor que não tem remédio
e sorri ao infortúnio; não esperes que te sorriam:
Seria tempo perdido.
31
O mundo gira, distraído dos cálculos dos sábios.
Renuncia à vaidade de contar os astros
e lembra-te: vais morrer, não sonharás mais,
e os vermes da terra cuidarão do teu cadáver.
32
Aquele que criou o Universo e as estrelas
exagerou quando inventou a dor.
Lábios vermelhos como rubis, cabelos perfumados,
quantos sois no mundo?
33
Velho mundo sob o passo do cavalo branco e negro
dos dias e das noites, és o palácio triste onde mil Djenchids
sonharam com a glória e mil Bahrams com o amor,
e a cada manhã acordavam chorando.
34
Sono sobre a terra, sono debaixo da terra.
Sobre a terra, sob a terra: homens deitados.
Nada em toda a parte. Deserto.
Homens chegam, outros partem.
35
Enquanto o rouxinol lhe entoava um hino,
murchou a bela rosa por causa do vento sul.
Lamentaremos por ela ou por nós?
Quando morrermos, outra rosa desabrochará.
36
Se não tiveste a recompensa que merecias,
não te importes, não esperes nada;
já estava tudo nas páginas daquele livro
que o vento da eternidade vai virando ao acaso.
37
Quando me falam das delícias que na outra vida
os eleitos irão gozar, respondo:
Confio no vinho, não em promessas;
o som dos tambores só é belo ao longe.
38
Bebe vinho, ele te devolverá a mocidade,
a divina estação das rosas, da vida eterna,
dos amigos sinceros. Bebe, e desfruta
o instante fugidio que é a tua vida.
39
Bebe o teu vinho. Vais dormir muito tempo
debaixo da terra, sem amigos, sem mulheres.
Confio-te um grande segredo:
As tulipas murchas não reflorescem mais.
40
Baixinho a argila dizia
ao oleiro que a torneava:
Já fui como tu, não te esqueças,
não me maltrates.
41
Oleiro, vai com cuidado, trata bem a argila
com que Adão foi conformado.
Vejo no torno que moves a mão de Feridun,
o coração de Khosru... o que fizeste?
42
A tulipa rubra nasce no campo que foi regado
pelo sangue de um altivo rei.
A violeta brota do sinal de beleza que palpitava
na face de uma doce adolescente.
43
Há tanto tempo giram os astros no espaço;
há tanto tempo se revezam os dias e as noites.
Anda de leve na terra, talvez aonde vais pisar
ainda estejam os olhos meigos de um adolescente.
44
As raízes do narciso que se inclina suave,
bebem a vida nos lábios mortos de uma mulher.
pisa leve a relva macia, ela nasce das cinzas
de rostos tão belos quanto as tulipas.
45
O oleiro ia modelando as alças e os contornos
de uma ânfora. O barro que ele conformava
era feito de crânios de sultões
e mãos de mendigos.
46
O bem e o mal se entrelaçam no mundo.
Não agradeças ao Céu
pela sorte que te coube, nem o acuses:
Ele é indiferente.
47
Se em teu coração cultivaste a rosa do amor,
quer tenhas procurado ouvir a voz de Deus,
ou esgotado a taça do prazer,
a tua vida não foi em vão.
48
Vai com prudência, viajante.
A estrada é perigosa, a adaga do destino
é acerada. Não colhas as amêndoas doces,
são venenosas.
49
Um jardim florido, uma bela mulher, e vinho.
Eis o meu prazer e a minha amargura,
o meu paraíso e o meu inferno.
Mas quem sabe o que é Céu e o que é Inferno?
50
Com a tua face como a rosa, com o teu rosto belo,
como o de um ídolo chinês, não sabes
o que o teu olhar faz do rei da Babilônia?
Um bispo do xadrez, que foge da rainha.
51
A vida passa. O que resta de Bagdad e Balk?
A aragem mais leve é fatal à rosa já desabrochada.
Bebe o vinho, e contempla a lua:
lembra-te das civilizações que ela já viu morrer.
52
Ouve o que a Sabedoria diz todos os dias:
A vida é breve.
Não te esqueças, não és como certas plantas
que rebrotam depois de cortadas.
53
Mestres e sábios morreram
sem se entenderem sobre o Ser e o Não Ser.
Nós, ignorantes, vamos apanhar as tenras uvas;
que os grandes homens se regalem com as passas.
54
O meu nascimento não aumentou o Universo,
nem a minha morte lhe fanará o esplendor.
Ninguém me dirá por quê vim ao mundo,
ou porquê um dia irei embora.
55
Iremos nos perder na estrada do amor,
e o destino nos pisará, indiferente.
Vem, menina, taça encantada, dá-me de beber
em teus lábios, antes que eu me torne pó.
56
Só de nome conhecemos a felicidade.
O nosso melhor amigo é o vinho;
afaga a única que te é fiel: a ânfora,
cheia do sangue das vinhas.
57
Não te inquietes, a vida é como um suspiro.
As cinzas de Djenchid e de Kai-Kobad volteiam
na poeira vermelha que tolda o ar.
O Universo é uma miragem, a vida é um sonho.
58
Senta-te e bebe, felicidade que Mahmud não teve.
Escuta os sussuros dos amantes, são os Salmos de Davi.
Não te importes com o passado, não sondes o futuro,
não percas este instante: Eis a paz.
59
Pessoas presunçosas e obtusas inventaram
diferenças entre o corpo e a alma.
Sei apenas que o vinho apaga as angústias
que nos atormentam, e nos devolve a calma.
60
Que enigma os astros que andam pelo espaço.
Agarra-te à corda da sabedoria, Khayyam.
presta atenção à vertigem
que faz cair perto de ti os teus companheiros.
61
Não temo a morte. prefiro esse ato inelutável
ao outro que me foi imposto no dia em que nasci.
O que é a vida, afinal? Um bem que me confiaram
sem me consultarem e que entregarei com indiferença.
62
Estou velho, e a paixão que me inspiraste
vai me levar ao túmulo: não cesso de encher a taça.
Esta paixão tem razão contra mim:
o tempo estraga a minha bela rosa.
63
Podes me perseguir, miragem de outra ventura,
podes modular a tua voz, mas só escuto aquela
que já me encantou. Dizem-me: Deus te perdoará.
Recuso o perdão que não pedi.
64
Um pouco de pão, um pouco de água,
a sombra de uma árvore, e o teu olhar;
nenhum sultão é mais feliz do que eu,
e nenhum mendigo é mais triste.
65
Tantos carinhos, tantas delícias,
tanta ternura no começo do nosso amor.
Mas agora o teu prazer
é dilacerar o meu coração. por quê?
66
Vinho, bálsamo para o meu coração doente,
vinho da cor das rosas, vinho perfumado
para calar a minha dor. Vinho, e o teu alaúde
de cordas de seda, minha amada.
67
Falam de um Criador...
e Ele deu forma às criaturas para destruí-las?
por que são feias? por que são belas?
Quem é o responsável? Não compreendo nada.
68
Todos pretendem andar pelo Caminho do Saber.
Uns o procuram, outros afirmam tê-lo encontrado.
Um dia uma grande voz dirá: Não há caminho,
nem atalho.
69
Brinda ao resplendor da aurora, e dedica
o vinho vermelho desta taça, em forma de chama,
ou de tulipa, ao sorriso meigo de algum adolescente.
Bebe, e esquece que o punho da dor te prostrará.
70
Vinho! Que palpite em minhas veias,
que inunde a minha cabeça. Silêncio!
Tudo é mentira. Copos! Depressa!
Envelheci muito.
71
Do meu túmulo virá um tal perfume de vinho
que embriagará os que por lá passarem,
e uma tal serenidade vai pairar ali,
que os amantes não quererão se afastar.
72
No turbilhão da vida são felizes aqueles
que presumindo saber tudo não se instruem.
Fui buscar os segredos do Universo e voltei
invejando os cegos que encontrei pelo caminho.
73
Alguns amigos me dizem: Não bebas mais Khayyam.
Respondo: Quando bebo, ouço o que me dizem
as rosas, as tulipas, os jasmins;
ouço até o que não me diz a minha amada.
74
Em que pensas? Nos que já morreram? São pó no pó.
pensas nas virtudes que tiveram? Sim? Deixa-me sorrir.
Toma este copo, vamos beber; ouve sem inquietação
o vasto Silêncio do Universo.
75
Não faças planos para amanhã.
Sabes se poderás terminar a frase que vais dizer?
Talvez amanhã estejamos tão longe deste albergue,
como os outros que já se foram há sete mil anos.
76
Conquistador de corações, belo moço
de olhos brilhantes e altivo semblante,
senta-te e apanha um copo. Eu te contemplo,
e penso na ânfora que serás um dia.
77
Há muito tempo a minha mocidade se foi.
primavera da minha vida, passaste como passaram
as outras primaveras: sem que eu percebesse.
partiste, como se vão os melhores dias.
78
Sente todos os perfumes, todas as cores,
todas as músicas; ama todas as mulheres.
Lembra-te que a vida é breve,
e que breve voltarás ao pó.
79
Não terás paz na terra, e é tolice acreditar
no repouso eterno. Depois da morte
teu sono será breve: renascerás na erva
que será pisada, ou na flor que murchará.
80
O que realmente possuo?
O que restará de mim depois da morte?
É tão breve a vida, uma fogueira:
Chamas, e depois, cinzas.
81
Convicção e dúvida, erro e verdade:
são palavras, como bolhas de ar;
brilhantes, ou baças: vazias,
como a existência dos homens.
82
Escuta, isto ninguém te contou:
Quando a primeira alba clareou o mundo,
Adão já era uma criatura dolorosa,
que pedia a noite, ansiava a morte.
83
Não pedi para nascer. Recebo, sem espanto ou ira,
o que a vida me entrega. Um dia hei de partir;
não me importa saber qual o motivo
da minha misteriosa passagem pelo mundo.
84
Colhe os frutos que a vida te oferece
e escolhe as taças maiores;
não creias que Deus vá fazer as contas
dos teus vícios e das tuas virtudes.
85
Os meus cabelos estão brancos,
tenho setenta anos de idade.
Agarro agora a felicidade; amanhã,
talvez não me restem forças.
86
Nunca procurei saber onde encontrar
o manto da mentira e do ardil,
mas sempre andei à procura
dos melhores vinhos.
87
Alguns sábios da Grécia sabiam propor enigmas?
É absoluta a minha indiferença por tanta inteligência.
Dá-me vinho, minha amiga; deixa-me ouvir o alaúde,
olha como lembra o vento que passa, como nós.
88
É o mês do Ramadã. Amanhã o sol
vai iluminar uma cidade silenciosa;
os vinhos dormirão em suas urnas
e as mulheres à sombra dos bosques.
89
Somos os peões deste jogo do xadrez
que Deus trama. Ele nos move, lança-nos
uns contra os outros, nos desloca, e depois
nos recolhe, um a um, à Caixa do Nada.
90
A abóbada celeste se parece a uma taça emborcada;
sob ela, em vão, erram os sábios.
Ama a tua amada como a ânfora ama o copo;
olha, boca a boca, ela lhe dá o seu próprio sangue.
91
O amor que não consome, não é amor;
a brasa tem o mesmo calor de uma fogueira?
Aquele que ama, pelas noites e dias,
vai se consumindo no prazer e na dor.
92
Não aprendeste nada com os sábios,
mas o roçar dos lábios de uma mulher em teu peito
pode te revelar a felicidade.
Tens os dias contados. Toma vinho.
93
O vinho dá-te o calor que não tens;
suaviza o jugo do passado e te alivia
das brumas do futuro; inunda-te de luz
e te liberta desta prisão.
94
Nunca rezei nas mesquitas, mas antes
ainda sentia uma tênue esperança.
Agora gosto de me sentar lá;
aquela sombra é propícia ao sono.
95
Na terra cheia de cores alguém caminha:
não é muçulmano, não é infiel, nem pobre, nem rico;
não acredita na Verdade e não afirma nada.
Quem é esse, intrépido e triste?
96
Um dia pedi a um velho sábio
que me falasse sobre os que já se foram.
Ele disse:
Não voltarão. Eis o que sei.
97
Olha, a rosa estremece ao sopro do vento;
um pássaro entoa um hino; uma nuvem paira.
Bebe, e esquece que o vento vai ressecar a rosa,
levar a nuvem refrescante e o canto do rouxinol.
98
Onde estão os nossos amigos? Já morreram?
Ainda os ouço na taverna...
já se foram? ou estarão embriagados
de tanto terem vivido?
99
Quando eu não mais viver, não haverá mais rosas,
nem lábios vermelhos, nem vinhos perfumados;
não haverá auroras, nem amores, nem penas:
o Universo terá acabado, pois ele é o meu pensamento.
100
Podes sondar a profunda noite que nos envolve
e ir pelo mistério adentro. Em vão.
Adão, Eva, como deve ter sido amargo aquele beijo
que nos gerou tão desesperançados.
101
Cansado de perguntar aos sábios, perguntei à taça:
para onde irei depois da morte?
Ela me respondeu baixinho: Bebe em minha boca,
bebe longamente: não voltarás.
102
Eu estava numa olaria e mil ânforas murmuravam.
Então uma delas disse: Silêncio, deixem
que esse homem se lembre dos oleiros
e dos compradores de ânforas que já fomos.
103
Nesta noite caem pétalas das estrelas,
mas o meu jardim ainda não está coberto delas.
Assim como o céu derrama flores sobre a terra,
verto em minha taça o vinho da cor das rosas.
104
Queres saber como será o amanhã? Tolice.
Confia, ou o fado justificará os teus receios.
Não te apegues, não questiones livros nem pessoas,
nosso destino é insondável.
105
A aurora encheu de rosas a taça do céu,
e o último rouxinol canta o seu meigo canto;
e ainda há quem pense em honras e glórias...
Vem, menina... que sedosos são os teus cabelos...
106
Vai um cavaleiro pelas sombras do entardecer.
Aonde irá, por serras e por vales?
e onde estará deitado amanhã?
Sobre a terra, ou debaixo dela?
107
O vinho é da cor das rosas;
talvez não seja o sangue das uvas, mas das rosas;
e o azul desta taça talvez seja o céu cristalizado;
e não seria a noite a pálpebra do dia?
108
Mais outra aurora. Como em todas as manhãs,
deparo a beleza do mundo, e não posso agradecer:
há tantas rosas, tantos lábios. Vem minha amiga,
pousa o teu alaúde, os pássaros estão cantando.
109
Homem ingênuo, pensas que és sábio
e estás sufocado entre os dois infinitos
do passado e do futuro. Não podes sair.
Bebe, e esquece a tua impotência.
110
O que farei hoje? Ir à taverna? Ler um livro?
Um pássaro passa. Aonde irá? Já não o vejo.
Embriaguez de uma ave no céu azul e morno;
melancolia de um homem que ainda se lembra.
111
Mais vinho, minha amiga,
as tuas faces ainda não estão rosadas.
Um pouco mais de tristeza, Khayyam,
tua amada vai te olhar, vai sorrir.
112
Não tragam lâmpadas, os meus amigos adormeceram;
estão imóveis, pálidos, como ficarão no túmulo.
Não tragam as lâmpadas,
os mortos não precisam delas.
113
Estudei muito e tive mestres eminentes
e me orgulhava dos meus progressos e triunfos.
Agora lembro-me do sábio que eu era: era como a água
que toma a forma do vaso, como a fumaça ao vento.
114
Guardo as minhas tristezas como a ave
se esconde para morrer. Dá-me vinho, minha amiga,
e escuta os meus gracejos: Vinho, rosas, lábios,
e a tua indiferença pela minha dor.
115
Despe-te dessas roupas que te envaidecem
e que não trazias ao nascer;
os teus conhecidos não te cumprimentarão mais,
mas em teu peito cantarão os Serafins do céu.
116
Aconteceu o que eu já esperava: Ela me deixou.
Quando eu a tinha era tão fácil a renúncia;
junto dela, como estavas só, Khayyam;
ela se foi para te refugiares nela.
117
Ah, Senhor, destruíste a minha alegria,
ergueste uma muralha entre mim e a minha amada,
pisaste a minha bela seara; vou morrer,
e Tu, cambaleias, embriagado.
118
Silêncio, dor da minha alma,
deixa-me procurar um remédio.
É preciso viver; os mortos não se lembram
e eu quero rever a minha amada.
119
É grande a tua dor? Não lhe dês atenção.
Lembra-te dos outros que sofrem inutilmente.
procura uma linda mulher; mas cuidado, evita amá-la,
e ela, que não te ame.
120
Rosas, taças, lábios vermelhos:
brinquedos que o Tempo estraga;
estudo, meditação, renúncia:
cinzas que o Tempo espalha.
Rubaiyat
Jorge Luis Borges
Volte em minha voz a métrica do persa
A recordar que o tempo é a diversa
Trama de sonhos ávidos que somos
E que o secreto Sonhador dispersa.
Volte a afirmar que é a cinza, o fogo,
A carne, o pó, o rio, a fugitiva
Imagem de tua vida e de minha vida
Que lentamente se nos vai de logo.
Volte a afirmar o árduo monumento
Que constrói a soberba é como o vento
Que passa, e que à luz inconcebível
De Quem perdura, um século é momento.
Volte a advertir que o rouxinol de ouro
Canta unicamente no sonoro
Ápice da noite e que os astros
Avaros não prodigam seu tesouro.
Volte a lua ao verso que tua mão
Escreve como torna no temporão
Azul a teu jardim. A mesma lua
Desse jardim há de te buscar em vão.
Sejam sob a lua das ternas
Tardes teu humilde exemplo as cisternas,
Em cujo espelho de água se repetem
Umas poucas imagens eternas.
Que a lua do persa e os incertos
Ouros dos crepúsculos desertos
Voltem. Hoje é ontem. És os outros
Cujo rosto é o pó. És os mortos.
Jorge Luis Borges
Volte em minha voz a métrica do persa
A recordar que o tempo é a diversa
Trama de sonhos ávidos que somos
E que o secreto Sonhador dispersa.
Volte a afirmar que é a cinza, o fogo,
A carne, o pó, o rio, a fugitiva
Imagem de tua vida e de minha vida
Que lentamente se nos vai de logo.
Volte a afirmar o árduo monumento
Que constrói a soberba é como o vento
Que passa, e que à luz inconcebível
De Quem perdura, um século é momento.
Volte a advertir que o rouxinol de ouro
Canta unicamente no sonoro
Ápice da noite e que os astros
Avaros não prodigam seu tesouro.
Volte a lua ao verso que tua mão
Escreve como torna no temporão
Azul a teu jardim. A mesma lua
Desse jardim há de te buscar em vão.
Sejam sob a lua das ternas
Tardes teu humilde exemplo as cisternas,
Em cujo espelho de água se repetem
Umas poucas imagens eternas.
Que a lua do persa e os incertos
Ouros dos crepúsculos desertos
Voltem. Hoje é ontem. És os outros
Cujo rosto é o pó. És os mortos.
Soneto 116
William Shakespeare
De almas sinceras a união sincera
Nada há que impeça: amor não é amor
Se quando encontra obstáculos se altera,
Ou se vacila ao mínimo temor.
Amor é um marco eterno, dominante,
Que encara a tempestade com bravura;
É astro que norteia a vela errante,
Cujo valor se ignora, lá na altura.
Amor não teme o tempo, muito embora
Seu alfange não poupe a mocidade;
Amor não se transforma de hora em hora,
Antes se afirma para a eternidade.
Se isso é falso, e que é falso alguém provou,
Eu não sou poeta, e ninguém nunca amou.
Tradução de Bárbara Heliodora
William Shakespeare
De almas sinceras a união sincera
Nada há que impeça: amor não é amor
Se quando encontra obstáculos se altera,
Ou se vacila ao mínimo temor.
Amor é um marco eterno, dominante,
Que encara a tempestade com bravura;
É astro que norteia a vela errante,
Cujo valor se ignora, lá na altura.
Amor não teme o tempo, muito embora
Seu alfange não poupe a mocidade;
Amor não se transforma de hora em hora,
Antes se afirma para a eternidade.
Se isso é falso, e que é falso alguém provou,
Eu não sou poeta, e ninguém nunca amou.
Tradução de Bárbara Heliodora
O Assinalado
Cruz e Sousa
Tu és o louco da imortal loucura,
O louco da loucura mais suprema.
A Terra é sempre a tua negra algema,
Prende-te nela a extrema Desventura.
Mas essa mesma algema de amargura,
Mas essa mesma Desventura extrema
Faz que tu'alma suplicando gema
E rebente em estrelas de ternura.
Tu és o Poeta, o grande Assinalado
Que povoas o mundo despovoado,
De belezas eternas, pouco a pouco...
Na Natureza prodigiosa e rica
Toda a audácia dos nervos justifica
Os teus espasmos imortais de louco!
Cruz e Sousa
Tu és o louco da imortal loucura,
O louco da loucura mais suprema.
A Terra é sempre a tua negra algema,
Prende-te nela a extrema Desventura.
Mas essa mesma algema de amargura,
Mas essa mesma Desventura extrema
Faz que tu'alma suplicando gema
E rebente em estrelas de ternura.
Tu és o Poeta, o grande Assinalado
Que povoas o mundo despovoado,
De belezas eternas, pouco a pouco...
Na Natureza prodigiosa e rica
Toda a audácia dos nervos justifica
Os teus espasmos imortais de louco!
DigestivoCultural.com - "O melhor presente que a Áustria nos deu" - Sérgio Augusto - 23/9/2002 "Qual é o maior intelectual brasileiro de todos os tempos? Quem disse Otto Maria Carpeaux (1900-1978) só estará errando a nacionalidade."
MORTE POR ÁGUA
T.S. Eliot
Flebas, o Fenício, morto há quinze dias,
Esqueceu o grito das gaivotas e o marulho das vagas
E os lucros e os prejuízos.
Uma corrente submarina
Roeu-lhe os ossos em surdina. Enquanto subia e descia
Ele evocava as cenas de sua maturidade e juventude
Até que ao torvelinho sucumbiu.
Gentio ou judeu
Ó tu que o leme giras e avistas onde o vento se origina,
Considera a Flebas, que foi um dia alto e belo como tu.
T.S. Eliot
Flebas, o Fenício, morto há quinze dias,
Esqueceu o grito das gaivotas e o marulho das vagas
E os lucros e os prejuízos.
Uma corrente submarina
Roeu-lhe os ossos em surdina. Enquanto subia e descia
Ele evocava as cenas de sua maturidade e juventude
Até que ao torvelinho sucumbiu.
Gentio ou judeu
Ó tu que o leme giras e avistas onde o vento se origina,
Considera a Flebas, que foi um dia alto e belo como tu.
quarta-feira, 25 de setembro de 2002
MAR PORTUGUÊS
Ó mar salgado, quanto do teu sal
São lágrimas de Portugal!
Por te cruzarmos, quantas mães choraram,
Quantos filhos em vão rezaram!
Quantas noivas ficaram por casar
Para que fosses nosso, ó mar!
Valeu a pena? Tudo vale a pena
Se a alma não é pequena.
Quem quer passar além do Bojador
Tem que passar além da dor.
Deus ao mar o perigo e o abismo deu,
Mas nele é que espelhou o céu.
Fernando Pessoa
Ó mar salgado, quanto do teu sal
São lágrimas de Portugal!
Por te cruzarmos, quantas mães choraram,
Quantos filhos em vão rezaram!
Quantas noivas ficaram por casar
Para que fosses nosso, ó mar!
Valeu a pena? Tudo vale a pena
Se a alma não é pequena.
Quem quer passar além do Bojador
Tem que passar além da dor.
Deus ao mar o perigo e o abismo deu,
Mas nele é que espelhou o céu.
Fernando Pessoa
ORAÇÃO PARA OS ESTUDOS
Santo Tomás de Aquino
Infalível Criador, que dos tesouros da Vossa sabedoria, tiraste as hierarquias dos Anjos colocando-as com ordem admirável no céu; distribuístes o universo com encantável harmonia, Vós que sois a verdadeira fonte da luz e o princípio supremo da sabedoria, difundi sobre as trevas da minha mente o raio do esplendor, removendo as duplas trevas nas quais nasci: o pecado e a ignorância. Vós que tornaste fecunda a língua das crianças, tornai erudita a minha língua e espalhai sobre os meus lábios a vossa bênção. Concede-me a acuracidade para entender, a capacidade de reter, a sutileza de relevar, a facilidade de aprender, a graça abundante de falar e de escrever. Ensina-me a começar, rege-me a continuar e perseverar até o término. Vós que sois verdadeiro Deus e verdadeiro homem, que vive e reina pelos séculos dos séculos.
Amém.
Santo Tomás de Aquino
Infalível Criador, que dos tesouros da Vossa sabedoria, tiraste as hierarquias dos Anjos colocando-as com ordem admirável no céu; distribuístes o universo com encantável harmonia, Vós que sois a verdadeira fonte da luz e o princípio supremo da sabedoria, difundi sobre as trevas da minha mente o raio do esplendor, removendo as duplas trevas nas quais nasci: o pecado e a ignorância. Vós que tornaste fecunda a língua das crianças, tornai erudita a minha língua e espalhai sobre os meus lábios a vossa bênção. Concede-me a acuracidade para entender, a capacidade de reter, a sutileza de relevar, a facilidade de aprender, a graça abundante de falar e de escrever. Ensina-me a começar, rege-me a continuar e perseverar até o término. Vós que sois verdadeiro Deus e verdadeiro homem, que vive e reina pelos séculos dos séculos.
Amém.
Para quem gosta de observar o céu noturno um ótimo guia para encontrar estrelas e constelações pode ser encontrado no Skymaps.com. O guia está em formato PDF e pode ser baixado gratuitamente.
Ao Entardecer
Ao entardecer, debruçado pela janela,
E sabendo de soslaio que há campos em frente,
Leio até me arderem os olhos
O livro de Cesário Verde.
Que pena que tenho dele! Ele era um camponês
Que andava preso em liberdade pela cidade.
Mas o modo como olhava para as casas,
E o modo como reparava nas ruas,
E a maneira como dava pelas cousas,
É o de quem olha para árvores,
E de quem desce os olhos pela estrada por onde vai andando
E anda a reparar nas flores que há pelos campos ...
Por isso ele tinha aquela grande tristeza
Que ele nunca disse bem que tinha,
Mas andava na cidade como quem anda no campo
E triste como esmagar flores em livros
E pôr plantas em jarros...
Alberto Caieiro
Ao entardecer, debruçado pela janela,
E sabendo de soslaio que há campos em frente,
Leio até me arderem os olhos
O livro de Cesário Verde.
Que pena que tenho dele! Ele era um camponês
Que andava preso em liberdade pela cidade.
Mas o modo como olhava para as casas,
E o modo como reparava nas ruas,
E a maneira como dava pelas cousas,
É o de quem olha para árvores,
E de quem desce os olhos pela estrada por onde vai andando
E anda a reparar nas flores que há pelos campos ...
Por isso ele tinha aquela grande tristeza
Que ele nunca disse bem que tinha,
Mas andava na cidade como quem anda no campo
E triste como esmagar flores em livros
E pôr plantas em jarros...
Alberto Caieiro
SONETO DA FIDELIDADE
Vinícius de Morais
De tudo, meu amor serei atento
Antes, e com tal zelo, e sempre, e tanto
Que mesmo em face do maior encanto
Dele se encante mais meu pensamento.
Quero vivê-lo em cada vão momento
E em seu louvor hei de espalhar meu canto
E rir meu riso e derramar meu pranto
Ao seu pesar ou seu contentamento.
E assim, quando mais tarde me procure
Quem sabe a morte, angústia de quem vive
Quem sabe a solidão, fim de quem ama
Eu possa me dizer do amor ( que tive ) :
Que não seja imortal, posto que é chama
Mas que seja infinito enquanto dure.
Vinícius de Morais
De tudo, meu amor serei atento
Antes, e com tal zelo, e sempre, e tanto
Que mesmo em face do maior encanto
Dele se encante mais meu pensamento.
Quero vivê-lo em cada vão momento
E em seu louvor hei de espalhar meu canto
E rir meu riso e derramar meu pranto
Ao seu pesar ou seu contentamento.
E assim, quando mais tarde me procure
Quem sabe a morte, angústia de quem vive
Quem sabe a solidão, fim de quem ama
Eu possa me dizer do amor ( que tive ) :
Que não seja imortal, posto que é chama
Mas que seja infinito enquanto dure.
THE TYGER
William Blake
Tyger! Tyger! burning bright
In the forests of the night,
What immortal hand or eye
Could frame thy fearful symmetry?
In what distant deeps or skies
Burnt the fire of thine eyes?
On what wings dare he aspire?
What the hand dare seize the fire?
And what shoulder, and what art,
Could twist the sinews of thy heart,
And when thy heart began to beat,
What dread hand? and what dread feet?
What the hammer? what the chain?
In what furnace was thy brain?
What the anvil? what dread grasp
Dare its deadly terrors clasp?
When the stars threw down their spears,
And water'd heaven with their tears,
Did he smile his work to see?
Did he who made the Lamb make thee?
Tyger! Tyger! burning bright
In the forests of the night,
What immortal hand or eye,
Dare frame thy fearful symmetry?
O TIGRE
Tigre, tigre, flamante fulgor
Nas florestas de denso negror,
Que olho imortal, que não poderia
Te moldar a feroz simetria?
Em que altura ou abismo sem par
Ardeu o fogo do teu olhar?
Com quais asas sobe ele ao que clama?
Quais as mãos que seguram a chama?
Qual ombro poderia, ou qual arte,
Essas fibras do peito forjar-te?
E, ao pulsar desse teu coração,
Que pés horrendos, que horrenda mão?
Qual o martelo? Qual a corrente?
Que fornalha fundiu tua mente?
Qual a bigorna? Os punhos são quais,
Que atenazam terrores mortais?
Quando os astros, inermes de espanto,
Salpicaram os céus com seu pranto,
Por acaso sorriu teu obreiro?
Quem tem fez, fez também o Cordeiro?
Tigre, tigre, flamante fulgor
Nas florestas de denso negror,
Que olho imortal, que mão ousaria
Te moldar a feroz simetria?
(Tradução de Paulo Vizioli)
William Blake
Tyger! Tyger! burning bright
In the forests of the night,
What immortal hand or eye
Could frame thy fearful symmetry?
In what distant deeps or skies
Burnt the fire of thine eyes?
On what wings dare he aspire?
What the hand dare seize the fire?
And what shoulder, and what art,
Could twist the sinews of thy heart,
And when thy heart began to beat,
What dread hand? and what dread feet?
What the hammer? what the chain?
In what furnace was thy brain?
What the anvil? what dread grasp
Dare its deadly terrors clasp?
When the stars threw down their spears,
And water'd heaven with their tears,
Did he smile his work to see?
Did he who made the Lamb make thee?
Tyger! Tyger! burning bright
In the forests of the night,
What immortal hand or eye,
Dare frame thy fearful symmetry?
O TIGRE
Tigre, tigre, flamante fulgor
Nas florestas de denso negror,
Que olho imortal, que não poderia
Te moldar a feroz simetria?
Em que altura ou abismo sem par
Ardeu o fogo do teu olhar?
Com quais asas sobe ele ao que clama?
Quais as mãos que seguram a chama?
Qual ombro poderia, ou qual arte,
Essas fibras do peito forjar-te?
E, ao pulsar desse teu coração,
Que pés horrendos, que horrenda mão?
Qual o martelo? Qual a corrente?
Que fornalha fundiu tua mente?
Qual a bigorna? Os punhos são quais,
Que atenazam terrores mortais?
Quando os astros, inermes de espanto,
Salpicaram os céus com seu pranto,
Por acaso sorriu teu obreiro?
Quem tem fez, fez também o Cordeiro?
Tigre, tigre, flamante fulgor
Nas florestas de denso negror,
Que olho imortal, que mão ousaria
Te moldar a feroz simetria?
(Tradução de Paulo Vizioli)
"E assim como a fala é uma invenção sobre objetos e idéias, assim também o mito é uma invenção sobre a verdade.
Viemos de Deus, e inevitavelmente os mitos que tecemos, apesar de conterem erros, refletem também um fragmento da verdadeira luz, da verdade eterna que está com Deus. De fato, apenas ao fazer mitos, ao se tornar "subcriador" e inventar histórias, é que o Homem pode se aproximar do estado de perfeição que conhecia antes da Queda."
J.R.R. Tolkien
Elegia ao fim de um mundo - por Martim Vasques da Cunha
Viemos de Deus, e inevitavelmente os mitos que tecemos, apesar de conterem erros, refletem também um fragmento da verdadeira luz, da verdade eterna que está com Deus. De fato, apenas ao fazer mitos, ao se tornar "subcriador" e inventar histórias, é que o Homem pode se aproximar do estado de perfeição que conhecia antes da Queda."
J.R.R. Tolkien
Elegia ao fim de um mundo - por Martim Vasques da Cunha
Salmo 88
Ó SENHOR, Deus que me salva,
a ti clamo dia e noite.
Que a minha oração chegue diante de ti;
inclina os teus ouvidos ao meu clamor.
Tenho sofrido tanto que a minha vida
está à beira da sepultura!
Sou contado entre os que descem à cova;
sou como um homem que já não tem
forças.
Fui colocado junto aos mortos,
sou como os cadáveres que jazem ao
túmulo,
dos quais já não te lembras,
pois foram tirados de tua mão.
Puseste-me na cova mais profunda,
na escuridão das profundezas.
Tua ira pesa sobre mim;
com todas as suas ondas me afligiste.
Afastaste de mim os meus melhores
amigos
e me tornaste repugnante para eles.
Estou como um preso que não pode
fugir;
minhas vistas já estão fracas de tristeza.
A ti, SENHOR, clamo cada dia;
a ti ergo as tuas mãos.
Acaso mostras as tuas maravilhas aos
mortos?
Acaso os mortos se levantam
e te louvam?
Será que teu amor é anunciado no
túmulo,
e a tua fidelidade, no Abismo da
Morte?
Acaso são conhecidas as tuas maravilhas
na região das trevas,
e os teus feitos de justiça,
na terra do esquecimento?
Mas eu, SENHOR, a ti clamo por socorro;
já de manhã a minha oração
chega à tua presença.
Por que, SENHOR, me rejeitas
e escondes de mim o teu rosto?
Desde moço tenho sofrido
e ando perto da morte;
os teus terrores levaram-me ao
desespero.
Sobre mim se abateu a tua ira;
os pavores que me causas me
destruíram.
Cercam-me o dia todo como uma
inundação;
envolvem-me por completo.
Tiraste de mim os meus amigos
e os meus companheiros;
as trevas são minha única companheira.
Ó SENHOR, Deus que me salva,
a ti clamo dia e noite.
Que a minha oração chegue diante de ti;
inclina os teus ouvidos ao meu clamor.
Tenho sofrido tanto que a minha vida
está à beira da sepultura!
Sou contado entre os que descem à cova;
sou como um homem que já não tem
forças.
Fui colocado junto aos mortos,
sou como os cadáveres que jazem ao
túmulo,
dos quais já não te lembras,
pois foram tirados de tua mão.
Puseste-me na cova mais profunda,
na escuridão das profundezas.
Tua ira pesa sobre mim;
com todas as suas ondas me afligiste.
Afastaste de mim os meus melhores
amigos
e me tornaste repugnante para eles.
Estou como um preso que não pode
fugir;
minhas vistas já estão fracas de tristeza.
A ti, SENHOR, clamo cada dia;
a ti ergo as tuas mãos.
Acaso mostras as tuas maravilhas aos
mortos?
Acaso os mortos se levantam
e te louvam?
Será que teu amor é anunciado no
túmulo,
e a tua fidelidade, no Abismo da
Morte?
Acaso são conhecidas as tuas maravilhas
na região das trevas,
e os teus feitos de justiça,
na terra do esquecimento?
Mas eu, SENHOR, a ti clamo por socorro;
já de manhã a minha oração
chega à tua presença.
Por que, SENHOR, me rejeitas
e escondes de mim o teu rosto?
Desde moço tenho sofrido
e ando perto da morte;
os teus terrores levaram-me ao
desespero.
Sobre mim se abateu a tua ira;
os pavores que me causas me
destruíram.
Cercam-me o dia todo como uma
inundação;
envolvem-me por completo.
Tiraste de mim os meus amigos
e os meus companheiros;
as trevas são minha única companheira.
José
Carlos Drummund de Andrade
E agora, José?
A festa acabou,
a luz apagou,
o povo sumiu,
a noite esfriou,
e agora, José?
E agora, você?
você que é sem nome,
que zomba dos outros,
você que faz versos,
que ama, protesta?
e agora, José?
Está sem mulher,
está sem discurso,
está sem carinho,
já não pode beber,
já não pode fumar,
cuspir já não pode,
a noite esfriou,
o dia não veio,
o bonde não veio,
o riso não veio
não veio a utopia
e tudo acabou
e tudo fugiu
e tudo mofou
e agora, José?
E agora, José?
Sua doce palavra,
seu instante de febre,
sua gula e jejum,
sua biblioteca,
sua lavra de ouro
seu terno de vidro,
sua incoerência,
seu ódio - e agora?
Com a chave na mão
quer abrir a porta,
não existe porta;
quer morrer no mar,
mas o mar secou;
quer ir para Minas,
Minas não há mais.
José, e agora?
Se você gritasse,
se você gemesse,
se você tocasse
a valsa vienense,
se você dormisse,
se você cansasse
se você morresse...
Mas você não morre,
você é duro, José!
Sozinho no escuro
Qual bicho-do-mato,
sem teogonia,
sem parede nua
para se encostar,
sem cavalo preto
que fuja a galope,
você marcha, José!
José, para onde?
Carlos Drummund de Andrade
E agora, José?
A festa acabou,
a luz apagou,
o povo sumiu,
a noite esfriou,
e agora, José?
E agora, você?
você que é sem nome,
que zomba dos outros,
você que faz versos,
que ama, protesta?
e agora, José?
Está sem mulher,
está sem discurso,
está sem carinho,
já não pode beber,
já não pode fumar,
cuspir já não pode,
a noite esfriou,
o dia não veio,
o bonde não veio,
o riso não veio
não veio a utopia
e tudo acabou
e tudo fugiu
e tudo mofou
e agora, José?
E agora, José?
Sua doce palavra,
seu instante de febre,
sua gula e jejum,
sua biblioteca,
sua lavra de ouro
seu terno de vidro,
sua incoerência,
seu ódio - e agora?
Com a chave na mão
quer abrir a porta,
não existe porta;
quer morrer no mar,
mas o mar secou;
quer ir para Minas,
Minas não há mais.
José, e agora?
Se você gritasse,
se você gemesse,
se você tocasse
a valsa vienense,
se você dormisse,
se você cansasse
se você morresse...
Mas você não morre,
você é duro, José!
Sozinho no escuro
Qual bicho-do-mato,
sem teogonia,
sem parede nua
para se encostar,
sem cavalo preto
que fuja a galope,
você marcha, José!
José, para onde?
Poema de Desintoxicação
Sejam quais forem suas palavras,
mesmo que me ignore e me odeie,
eu sempre estarei por perto,
ao alcance de teu chamado.
Não importa quão dura seja tua blasfêmia,
tão gélida e impiedosa a tua face,
eu estarei aqui,
e te perdoarei por tudo.
Mesmo que me humilhes,
e teus pés machuquem minha cabeça,
e tu lances meu corpo ao mais distante deserto,
retornarei para perto de ti,
como um cão,
que nunca renega seu dono.
A pedra que tu me lançaste,
me atingiu a fronte,
e meu sangue correu sobre a terra,
e fiquei pálido e não pude resistir.
Meu corpo agora tu não podes mais
atingir.
Meu corpo agora é diáfano,
e só ouço as tuas injúrias.
As lanças de teus olhos,
brilhantes olhos,
já não me ferem.
E ainda não entendo.
E tu agora caminhas só,
Mas protejo teu passo,
desvio teus pés da pedra
e do espinho
até o fim dos tempos.
20/09/02
Sejam quais forem suas palavras,
mesmo que me ignore e me odeie,
eu sempre estarei por perto,
ao alcance de teu chamado.
Não importa quão dura seja tua blasfêmia,
tão gélida e impiedosa a tua face,
eu estarei aqui,
e te perdoarei por tudo.
Mesmo que me humilhes,
e teus pés machuquem minha cabeça,
e tu lances meu corpo ao mais distante deserto,
retornarei para perto de ti,
como um cão,
que nunca renega seu dono.
A pedra que tu me lançaste,
me atingiu a fronte,
e meu sangue correu sobre a terra,
e fiquei pálido e não pude resistir.
Meu corpo agora tu não podes mais
atingir.
Meu corpo agora é diáfano,
e só ouço as tuas injúrias.
As lanças de teus olhos,
brilhantes olhos,
já não me ferem.
E ainda não entendo.
E tu agora caminhas só,
Mas protejo teu passo,
desvio teus pés da pedra
e do espinho
até o fim dos tempos.
20/09/02
terça-feira, 24 de setembro de 2002
Há poucos anos, quando era adolescente, estudava o segundo grau, e tinha uma agenda. Um agenda especial. Todas as músicas, todos os livros, todas as idéias eram registradas nesta agenda. Havia de tudo...
Este meu blog é uma reedição da minha agenda. Meus amigos da época talvez lembrem. Terá de tudo: tudo que leio, tudo que faço, tudo que vejo e que ouço e um pouco do que penso.
Este meu blog é uma reedição da minha agenda. Meus amigos da época talvez lembrem. Terá de tudo: tudo que leio, tudo que faço, tudo que vejo e que ouço e um pouco do que penso.
The Unforgiven
Metallica
New blood joins this earth
and quikly he's subdued
through constant pain disgrace
the young boy learns their rules
with time the child draws in
this whipping boy done wrong
deprived of all his thoughts
the young man struggles on and on he's known
a vow unto his own
that never from this day
his will they'll take away
what I've felt
what I've known
never shined through in what I've shown
never be
never see
won't see what might have been
what I've felt
what I've known
never shined through in what I've shown
never free
never me
so I dub thee unforgiven
they dedicate their lives
to running all of his
he tries to please them all
this bitter man he is
throughout his life the same
he's battled constantly
this fight he cannot win
a tired man they see no longer cares
the old man then prepares
to die regretfully
that old man here is me
what I've felt
what I've known
never shined through in what I've shown
never be
never see
won't see what might have been
what I've felt
what I've known
never shined through in what I've shown
never free
never me
so I dub the unforgiven
you labeled me
I'll label you
so I dub the unforgiven
Metallica
New blood joins this earth
and quikly he's subdued
through constant pain disgrace
the young boy learns their rules
with time the child draws in
this whipping boy done wrong
deprived of all his thoughts
the young man struggles on and on he's known
a vow unto his own
that never from this day
his will they'll take away
what I've felt
what I've known
never shined through in what I've shown
never be
never see
won't see what might have been
what I've felt
what I've known
never shined through in what I've shown
never free
never me
so I dub thee unforgiven
they dedicate their lives
to running all of his
he tries to please them all
this bitter man he is
throughout his life the same
he's battled constantly
this fight he cannot win
a tired man they see no longer cares
the old man then prepares
to die regretfully
that old man here is me
what I've felt
what I've known
never shined through in what I've shown
never be
never see
won't see what might have been
what I've felt
what I've known
never shined through in what I've shown
never free
never me
so I dub the unforgiven
you labeled me
I'll label you
so I dub the unforgiven
Starman
David Bowie
Goodbye love
Didn't know what time it was the lights were low oh how
I leaned back on my radio oh oh
Some cat was layin' down some rock 'n' roll 'lotta soul, he said
Then the loud sound did seem to fade a ade
Came back like a slow voice on a wave of phase ha hase
That weren't no D.J. that was hazy cosmic jive
There's a starman waiting in the sky
He'd like to come and meet us
But he thinks he'd blow our minds
There's a starman waiting in the sky
He's told us not to blow it
Cause he knows it's all worthwhile
He told me:
Let the children lose it
Let the children use it
Let all the children boogie
I had to phone someone so I picked on you ho ho
Hey, that's far out so you heard him too! o o
Switch on the TV we may pick him up on channel two
Look out your window I can see his light a ight
If we can sparkle he may land tonight a ight
Don't tell your poppa or he'll get us locked up in fright
There's a starman waiting in the sky
He'd like to come and meet us
But he thinks he'd blow our minds
There's a starman waiting in the sky
He's told us not to blow it
Cause he knows it's all worthwhile
He told me:
Let the children lose it
Let the children use it
Let all the children boogie
Starman waiting in the sky
He'd like to come and meet us
But he thinks he'd blow our minds
There's a starman waiting in the sky
He's told us not to blow it
Cause he knows it's all worthwhile
He told me:
Let the children lose it
Let the children use it
Let all the children boogie
La, la, la, la, la, la, la, la
La, la, la, la, la, la, la, la
La, la, la, la, la, la, la, la
La, la, la, la, la, la, la, la
La, la, la, la, la, la, la, la
David Bowie
Goodbye love
Didn't know what time it was the lights were low oh how
I leaned back on my radio oh oh
Some cat was layin' down some rock 'n' roll 'lotta soul, he said
Then the loud sound did seem to fade a ade
Came back like a slow voice on a wave of phase ha hase
That weren't no D.J. that was hazy cosmic jive
There's a starman waiting in the sky
He'd like to come and meet us
But he thinks he'd blow our minds
There's a starman waiting in the sky
He's told us not to blow it
Cause he knows it's all worthwhile
He told me:
Let the children lose it
Let the children use it
Let all the children boogie
I had to phone someone so I picked on you ho ho
Hey, that's far out so you heard him too! o o
Switch on the TV we may pick him up on channel two
Look out your window I can see his light a ight
If we can sparkle he may land tonight a ight
Don't tell your poppa or he'll get us locked up in fright
There's a starman waiting in the sky
He'd like to come and meet us
But he thinks he'd blow our minds
There's a starman waiting in the sky
He's told us not to blow it
Cause he knows it's all worthwhile
He told me:
Let the children lose it
Let the children use it
Let all the children boogie
Starman waiting in the sky
He'd like to come and meet us
But he thinks he'd blow our minds
There's a starman waiting in the sky
He's told us not to blow it
Cause he knows it's all worthwhile
He told me:
Let the children lose it
Let the children use it
Let all the children boogie
La, la, la, la, la, la, la, la
La, la, la, la, la, la, la, la
La, la, la, la, la, la, la, la
La, la, la, la, la, la, la, la
La, la, la, la, la, la, la, la
segunda-feira, 23 de setembro de 2002
"O marxismo, em sua essência, é radicalmente contra os valores cristãos, contra a ética cristã, contra a sua mensagem. O Cristianismo exalta o triunfo, a dignidade e a responsabilidade do ser individual. O marxismo é o contrário: exalta o coletivo, torna os valores morais relativos e propõe a salvação coletiva pela economia nesse Mundo, em substituição à salvação individual, no Além. Um cristão, por definição, não pode ser marxista, sendo a recíproca verdadeira."
O ÓPIO DOS INTELECTUAIS (III), Nivaldo Cordeiro.
O ÓPIO DOS INTELECTUAIS (III), Nivaldo Cordeiro.
Faroeste Caboclo
Letra: Renato Russo
Música: Renato Russo
Não tinha medo o tal João de Santo Cristo
Era o que todos diziam quando ele se perdeu
Deixou pra trás todo o marasmo da fazenda
Só pra sentir no seu sangue o ódio que Jesus lhe deu
Quando criança só pensava em ser bandido
Ainda mais quando com tiro de soldado o pai morreu
Era o terror da cercania onde morava
E na escola até o professor com ele aprendeu
Ia pra igreja só pra roubar o dinheiro
Que as velhinhas colocavam na caixinha do altar
Sentia mesmo que era mesmo diferente
Sentia que aquilo ali não era o seu lugar
Ele queria sair para ver o mar
E as coisas que ele via na televisão
Juntou dinheiro para poder viajar
E de escolha própria escolheu a solidão
Comia todas as menininhas da cidade
De tanto brincar de médico aos doze era professor
Aos quinze foi mandado pro reformatório
Onde aumentou seu ódio diante de tanto terror
Não entendia como a vida funcionava
Descriminação por causa da sua classe e sua cor
Ficou cansado de tentar achar resposta
E comprou uma passagem foi direto a Salvador
E lá chegando foi tomar um cafezinho
E encontrou um boiadeiro com quem foi falar
E o boiadeiro tinha uma passagem
Ia perder a viagem mas João foi lhe salvar:
Dizia ele "-Estou indo pra Brasília
Nesse país lugar melhor não há
To precisando visitar a minha filha
Eu fico aqui e você vai no meu lugar"
E João aceitou sua proposta
E num înibus entrou no Planalto Central
Ele ficou bestificado com a cidade
Saindo da rodoviária viu as luzes de natal
"- Meu Deus mas que cidade linda!
No Ano Novo eu começo a trabalhar"
Cortar madeira aprendiz de carpinteiro
Ganhava cem mil por mês em Taguatinga
Na sexta feira foi pra zona da cidade
Gastar todo o seu dinheiro de rapaz trabalhador
E conhecia muita gente interessante
Até um neto bastardo do seu bisavo
Um peruano que vivia na Bolivia
E muitas coisas trazia de lá
Seu nome era Pablo e ele dizia
Que um negócio ele ia começar
E Santo Cristo até a morte trabalhava
Mas o dinheiro não dava pra ele se alimentar
E ouvia às sete horas o noticiário
Que dizia sempre que seu ministro ia ajudar
Mas ele não queria mais conversa
E decidiu que como Pablo ele ia se virar
Elaborou mais uma vez seu plano santo
E sem ser crucificado a plantação foi começar
Logo logo os maluco da cidade
Souberam da novidade
"-Tem bagulho bom ai!"
E João de Santo Cristo ficou rico
E acabou com todos os traficantes dali
Fez amigos, frequentava a Asa Norte
Ia pra festa de Rock pra se libertar
Mas de repente
Sob um má influência dos boyzinhos da cidade
Começou a roubar
Já no primeiro roubo ele dançou
E pra inferno ele foi pela primeira vez
Violência e estupro do seu corpo
"-Vocês vão ver, eu vou pegar vocês!"
Agora Santo Cristo era bandido
Destemido e temido no Distrito Federal
Não tinha nenhum medo de polícia
Capitão ou traficante, playboy ou general
Foi quando conheceu uma menina
E de todos os seus pecados ele se arrependeu
Maria Lúcia era uma menina linda
E o coração dele pra ela o Santo Cristo prometeu
Ele dizia que queria se casar
E carpinteiro ele voltou a ser
"-Maria Lúcia eu pra sempre vou te amar
E um filho com você eu quero ter"
O tempo passa
E um dia vem na porta um senhor de alta classe com dinheiro na mão
E ele faz uma proposta indecorosa
E diz que espera uma resposta, uma resposta de João
"-Não boto bomba em banca de jornal
E nem em colégio de criança
Isso eu não faço não
E não protejo general de dez estrelas
Que fica atrás da mesa com o cu na mão
E é melhor o senhor sair da minha casa
Nunca brinque com um peixe de ascendente escorpião"
Mas antes de sair, com ódio no olhar
O velho disse:
"-Você perdeu a sua vida, meu irmão!"
"-Você perdeu a sua vida, meu irmão"
"-Você perdeu a sua vida, meu irmão"
Essas palavras vão entrar no coração
"-Eu vou sofrer as consequências como um cão."
Não é que o Santo Cristo estava certo
Seu futuro era incerto
E ele não foi trabalhar
Se embebedou e no meio da bebedeira
Descobriu que tinha outro trabalhando em seu lugar
Falou com Pablo que queria um parceiro
Que também tinha dinheiro e queria se armar
Pablo trazia o contrabando da Bolívia
E Santo Cristo revendia em Planaltina
Mas acontece que um tal de Jeremias
Traficante de renome apareceu por lá
Ficou sabendo dos planos de Santo Cristo
E decidiu que com João ele ia acabar.
Mas Pablo trouxe uma Winchester 22
E Santo Cristo já sabia atirar
E decidiu usar a arma só depois
Que Jeremias começasse a brigar
Jeremias maconheiro sem vergonha
Organizou a Roconha e fez todo mundo dançar
Desvirginava mocinhas inocentes
E dizia que era crente mas não sabia rezar
E Santo Cristo há muito não ia pra casa
E a saudade começou a apertar
"-Eu vou me embora, eu vou ver Maria Lúcia
Já está em tempo de a gente se casar"
Chegando em casa então ele chorou
E pra inferno ele foi pela segunda vez
Com Maria Lúcia Jeremias se casou
E um filho nela ele fez
Santo Cristo era só ódio pro dentro
E então o Jeremias pra um duelo ele chamou
"-Amanhã, as duas horas na Ceilândia
Em frente ao lote catorze é pra lá que eu vou
E você pode escolher as suas armas
Que eu acabo com você, seu porco traidor
E mato também Maria Lúcia
Aquela menina falsa pra que jurei o meu amor"
E Santo Cristo não sabia o que fazer
Quando viu o reporter da televisão
Que a notícia do duelo na TV
Dizendo a hora o local e a razão
No sábado, então as duas horas
Todo o povo sem demora
Foi lá só pra assistir
Um homem que atirava pelas costas
E acertou o Santo Cristo
E começou a sorrir
Sentindo o sangue na garganta
João olhou as bandeirinhas
E o povo a aplaudir
E olhou pro sorveteiro
E pras câmeras e a gente da TV que filmava tudo ali
E se lembrou de quando era uma criança
E de tudo o que viveu até aqui
E decidiu entar de vez naquela dança
"-Se a via-crucis virou circo, estou aqui."
E nisso o sol cegou seus olhos
E então Maria Lúcia ele reconheceu
Ela trazia a Winchester 22
A arma que seu primo Pablo lhe deu
"-Jeremias, eu sou homem. Coisa que você não é
Eu não atiro pelas costas, não.
Olha pra cá filha da puta sem vergonha
Dá uma olhada no meu sangue
E vem sentir o teu perdão"
E Santo Cristo com a Winchester 22
Deu cinco tiros no bandido traidor
Maria Lúcia se arrependeu depois
E morreu junto com João, seu protetor
O povo declarava que João de Santo Cristo
Era santo porque sabia morrer
E a alta burgesia da cidade não acreditava na história
Que ele viram da TV
E João não conseguiu o que queria
Quando veio pra Brasília com o diabo ter
Ele queria era falar com o presidente
Pra ajudar toda essa gente que só faz
Sofrer
Letra: Renato Russo
Música: Renato Russo
Não tinha medo o tal João de Santo Cristo
Era o que todos diziam quando ele se perdeu
Deixou pra trás todo o marasmo da fazenda
Só pra sentir no seu sangue o ódio que Jesus lhe deu
Quando criança só pensava em ser bandido
Ainda mais quando com tiro de soldado o pai morreu
Era o terror da cercania onde morava
E na escola até o professor com ele aprendeu
Ia pra igreja só pra roubar o dinheiro
Que as velhinhas colocavam na caixinha do altar
Sentia mesmo que era mesmo diferente
Sentia que aquilo ali não era o seu lugar
Ele queria sair para ver o mar
E as coisas que ele via na televisão
Juntou dinheiro para poder viajar
E de escolha própria escolheu a solidão
Comia todas as menininhas da cidade
De tanto brincar de médico aos doze era professor
Aos quinze foi mandado pro reformatório
Onde aumentou seu ódio diante de tanto terror
Não entendia como a vida funcionava
Descriminação por causa da sua classe e sua cor
Ficou cansado de tentar achar resposta
E comprou uma passagem foi direto a Salvador
E lá chegando foi tomar um cafezinho
E encontrou um boiadeiro com quem foi falar
E o boiadeiro tinha uma passagem
Ia perder a viagem mas João foi lhe salvar:
Dizia ele "-Estou indo pra Brasília
Nesse país lugar melhor não há
To precisando visitar a minha filha
Eu fico aqui e você vai no meu lugar"
E João aceitou sua proposta
E num înibus entrou no Planalto Central
Ele ficou bestificado com a cidade
Saindo da rodoviária viu as luzes de natal
"- Meu Deus mas que cidade linda!
No Ano Novo eu começo a trabalhar"
Cortar madeira aprendiz de carpinteiro
Ganhava cem mil por mês em Taguatinga
Na sexta feira foi pra zona da cidade
Gastar todo o seu dinheiro de rapaz trabalhador
E conhecia muita gente interessante
Até um neto bastardo do seu bisavo
Um peruano que vivia na Bolivia
E muitas coisas trazia de lá
Seu nome era Pablo e ele dizia
Que um negócio ele ia começar
E Santo Cristo até a morte trabalhava
Mas o dinheiro não dava pra ele se alimentar
E ouvia às sete horas o noticiário
Que dizia sempre que seu ministro ia ajudar
Mas ele não queria mais conversa
E decidiu que como Pablo ele ia se virar
Elaborou mais uma vez seu plano santo
E sem ser crucificado a plantação foi começar
Logo logo os maluco da cidade
Souberam da novidade
"-Tem bagulho bom ai!"
E João de Santo Cristo ficou rico
E acabou com todos os traficantes dali
Fez amigos, frequentava a Asa Norte
Ia pra festa de Rock pra se libertar
Mas de repente
Sob um má influência dos boyzinhos da cidade
Começou a roubar
Já no primeiro roubo ele dançou
E pra inferno ele foi pela primeira vez
Violência e estupro do seu corpo
"-Vocês vão ver, eu vou pegar vocês!"
Agora Santo Cristo era bandido
Destemido e temido no Distrito Federal
Não tinha nenhum medo de polícia
Capitão ou traficante, playboy ou general
Foi quando conheceu uma menina
E de todos os seus pecados ele se arrependeu
Maria Lúcia era uma menina linda
E o coração dele pra ela o Santo Cristo prometeu
Ele dizia que queria se casar
E carpinteiro ele voltou a ser
"-Maria Lúcia eu pra sempre vou te amar
E um filho com você eu quero ter"
O tempo passa
E um dia vem na porta um senhor de alta classe com dinheiro na mão
E ele faz uma proposta indecorosa
E diz que espera uma resposta, uma resposta de João
"-Não boto bomba em banca de jornal
E nem em colégio de criança
Isso eu não faço não
E não protejo general de dez estrelas
Que fica atrás da mesa com o cu na mão
E é melhor o senhor sair da minha casa
Nunca brinque com um peixe de ascendente escorpião"
Mas antes de sair, com ódio no olhar
O velho disse:
"-Você perdeu a sua vida, meu irmão!"
"-Você perdeu a sua vida, meu irmão"
"-Você perdeu a sua vida, meu irmão"
Essas palavras vão entrar no coração
"-Eu vou sofrer as consequências como um cão."
Não é que o Santo Cristo estava certo
Seu futuro era incerto
E ele não foi trabalhar
Se embebedou e no meio da bebedeira
Descobriu que tinha outro trabalhando em seu lugar
Falou com Pablo que queria um parceiro
Que também tinha dinheiro e queria se armar
Pablo trazia o contrabando da Bolívia
E Santo Cristo revendia em Planaltina
Mas acontece que um tal de Jeremias
Traficante de renome apareceu por lá
Ficou sabendo dos planos de Santo Cristo
E decidiu que com João ele ia acabar.
Mas Pablo trouxe uma Winchester 22
E Santo Cristo já sabia atirar
E decidiu usar a arma só depois
Que Jeremias começasse a brigar
Jeremias maconheiro sem vergonha
Organizou a Roconha e fez todo mundo dançar
Desvirginava mocinhas inocentes
E dizia que era crente mas não sabia rezar
E Santo Cristo há muito não ia pra casa
E a saudade começou a apertar
"-Eu vou me embora, eu vou ver Maria Lúcia
Já está em tempo de a gente se casar"
Chegando em casa então ele chorou
E pra inferno ele foi pela segunda vez
Com Maria Lúcia Jeremias se casou
E um filho nela ele fez
Santo Cristo era só ódio pro dentro
E então o Jeremias pra um duelo ele chamou
"-Amanhã, as duas horas na Ceilândia
Em frente ao lote catorze é pra lá que eu vou
E você pode escolher as suas armas
Que eu acabo com você, seu porco traidor
E mato também Maria Lúcia
Aquela menina falsa pra que jurei o meu amor"
E Santo Cristo não sabia o que fazer
Quando viu o reporter da televisão
Que a notícia do duelo na TV
Dizendo a hora o local e a razão
No sábado, então as duas horas
Todo o povo sem demora
Foi lá só pra assistir
Um homem que atirava pelas costas
E acertou o Santo Cristo
E começou a sorrir
Sentindo o sangue na garganta
João olhou as bandeirinhas
E o povo a aplaudir
E olhou pro sorveteiro
E pras câmeras e a gente da TV que filmava tudo ali
E se lembrou de quando era uma criança
E de tudo o que viveu até aqui
E decidiu entar de vez naquela dança
"-Se a via-crucis virou circo, estou aqui."
E nisso o sol cegou seus olhos
E então Maria Lúcia ele reconheceu
Ela trazia a Winchester 22
A arma que seu primo Pablo lhe deu
"-Jeremias, eu sou homem. Coisa que você não é
Eu não atiro pelas costas, não.
Olha pra cá filha da puta sem vergonha
Dá uma olhada no meu sangue
E vem sentir o teu perdão"
E Santo Cristo com a Winchester 22
Deu cinco tiros no bandido traidor
Maria Lúcia se arrependeu depois
E morreu junto com João, seu protetor
O povo declarava que João de Santo Cristo
Era santo porque sabia morrer
E a alta burgesia da cidade não acreditava na história
Que ele viram da TV
E João não conseguiu o que queria
Quando veio pra Brasília com o diabo ter
Ele queria era falar com o presidente
Pra ajudar toda essa gente que só faz
Sofrer
My Way
(Revaux/Francois/Anka)
And now, the end is near;
And so I face the final curtain.
My friend, I'll say it clear,
I'll state my case, of which I'm certain.
I've lived a life that's full.
I've traveled each and ev'ry highway;
But more, much more than this,
I did it my way.
Regrets, I've had a few;
But then again, too few to mention.
I did what I had to do
And saw it through without exemption.
I planned each charted course;
Each careful step along the byway,
But more, much more than this,
I did it my way.
Yes, there were times, I'm sure you knew
When I bit off more than I could chew.
But through it all, when there was doubt,
I ate it up and spit it out.
I faced it all and I stood tall;
And did it my way.
I've loved, I've laughed and cried.
I've had my fill; my share of losing.
And now, as tears subside,
I find it all so amusing.
To think I did all that;
And may I say - not in a shy way,
"No, oh no not me,
I did it my way".
For what is a man, what has he got?
If not himself, then he has naught.
To say the things he truly feels;
And not the words of one who kneels.
The record shows I took the blows -
And did it my way!
(Revaux/Francois/Anka)
And now, the end is near;
And so I face the final curtain.
My friend, I'll say it clear,
I'll state my case, of which I'm certain.
I've lived a life that's full.
I've traveled each and ev'ry highway;
But more, much more than this,
I did it my way.
Regrets, I've had a few;
But then again, too few to mention.
I did what I had to do
And saw it through without exemption.
I planned each charted course;
Each careful step along the byway,
But more, much more than this,
I did it my way.
Yes, there were times, I'm sure you knew
When I bit off more than I could chew.
But through it all, when there was doubt,
I ate it up and spit it out.
I faced it all and I stood tall;
And did it my way.
I've loved, I've laughed and cried.
I've had my fill; my share of losing.
And now, as tears subside,
I find it all so amusing.
To think I did all that;
And may I say - not in a shy way,
"No, oh no not me,
I did it my way".
For what is a man, what has he got?
If not himself, then he has naught.
To say the things he truly feels;
And not the words of one who kneels.
The record shows I took the blows -
And did it my way!
The End
The Doors
This is the end
Beautiful friend
This is the end
My only friend, the end
Of our elaborate plans, the end
Of everything that stands, the end
No safety or surprise, the end
I'll never look into your eyes...again
Can you picture what will be
So limitless and free
Desperately in need...of some...stranger's hand
In a...desperate land
Lost in a Roman...wilderness of pain
And all the children are insane
All the children are insane
Waiting for the summer rain, yeah
There's danger on the edge of town
Ride the King's highway, baby
Weird scenes inside the gold mine
Ride the highway west, baby
Ride the snake, ride the snake
To the lake, the ancient lake, baby
The snake is long, seven miles
Ride the snake...he's old, and his skin is cold
The west is the best
The west is the best
Get here, and we'll do the rest
The blue bus is callin' us
The blue bus is callin' us
Driver, where you taken' us
The killer awoke before dawn, he put his boots on
He took a face from the ancient gallery
And he walked on down the hall
He went into the room where his sister lived, and...then he
Paid a visit to his brother, and then he
He walked on down the hall, and
And he came to a door...and he looked inside
Father, yes son, I want to kill you
Mother...I want to...fuck you
C'mon baby, take a chance with us
C'mon baby, take a chance with us
C'mon baby, take a chance with us
And meet me at the back of the blue bus
Doin' a blue rock
On a blue bus
Doin' a blue rock
C'mon, yeah
Kill, kill, kill, kill, kill, kill
This is the end
Beautiful friend
This is the end
My only friend, the end
It hurts to set you free
But you'll never follow me
The end of laughter and soft lies
The end of nights we tried to die
This is the end
The Doors
This is the end
Beautiful friend
This is the end
My only friend, the end
Of our elaborate plans, the end
Of everything that stands, the end
No safety or surprise, the end
I'll never look into your eyes...again
Can you picture what will be
So limitless and free
Desperately in need...of some...stranger's hand
In a...desperate land
Lost in a Roman...wilderness of pain
And all the children are insane
All the children are insane
Waiting for the summer rain, yeah
There's danger on the edge of town
Ride the King's highway, baby
Weird scenes inside the gold mine
Ride the highway west, baby
Ride the snake, ride the snake
To the lake, the ancient lake, baby
The snake is long, seven miles
Ride the snake...he's old, and his skin is cold
The west is the best
The west is the best
Get here, and we'll do the rest
The blue bus is callin' us
The blue bus is callin' us
Driver, where you taken' us
The killer awoke before dawn, he put his boots on
He took a face from the ancient gallery
And he walked on down the hall
He went into the room where his sister lived, and...then he
Paid a visit to his brother, and then he
He walked on down the hall, and
And he came to a door...and he looked inside
Father, yes son, I want to kill you
Mother...I want to...fuck you
C'mon baby, take a chance with us
C'mon baby, take a chance with us
C'mon baby, take a chance with us
And meet me at the back of the blue bus
Doin' a blue rock
On a blue bus
Doin' a blue rock
C'mon, yeah
Kill, kill, kill, kill, kill, kill
This is the end
Beautiful friend
This is the end
My only friend, the end
It hurts to set you free
But you'll never follow me
The end of laughter and soft lies
The end of nights we tried to die
This is the end
Esse blog é quase um Diário de Viagem. Qual viagem? Minha viagem pela vida, pela internet, pelos livros e textos que leio... Um registro de minhas impressões. Em qualquer lugar que esteja tenho ao alcance da mão (onde houver um computador, um modem e uma linha telefônica, é claro!!!) tudo aquilo que preciso pra viver (intelectualmente falando é claro...). Talvez também ajude quem por aqui passar.
Outro endereço de leitura diária obrigatória: Evangelho do Dia. Há a opção de receber um email diário. É só se cadastrar.
Salmo 121
Senhor, guarda e protetor de seu povo
Cântico de peregrinação.
Levanto os olhos para os montes:
donde me virá o socorro?
O socorro me vem do Senhor,
que fez o céu e a terra.
Ele não permitirá que teu pé tropece;
tua sentinela não dorme.
Não! Não dorme nem repousa
a sentinela de Israel.
O Senhor é tua sentinela:
como sombra protetora, o Senhor está a tua direita.
De dia não te causará dano o sol,
nem a lua, de noite.
O Senhor te guardará de todo o mal,
ele guardará tua vida.
O Senhor te guardará, em tuas idas e vindas,
agora e para sempre.
I will lift up mine eyes unto the hills,
from whence cometh my help.
My help cometh from the Lord,
which made heaven and earth.
He will not suffer thy foot to be moved:
he that keepeth thee will not slumber.
Behold, he that keepeth Israel shall neither slumber nor sleep.
The Lord is thy keeper:
the Lord is thy shade upon thy right hand.
The sun shall not smite thee by day,
nor the moon by night.
The Lord shall preserve thee from all evil:
he shall preserve thy soul.
The Lord shall preserve thy going out and thy coming in
from this time forth, and even for evermore.
Senhor, guarda e protetor de seu povo
Cântico de peregrinação.
Levanto os olhos para os montes:
donde me virá o socorro?
O socorro me vem do Senhor,
que fez o céu e a terra.
Ele não permitirá que teu pé tropece;
tua sentinela não dorme.
Não! Não dorme nem repousa
a sentinela de Israel.
O Senhor é tua sentinela:
como sombra protetora, o Senhor está a tua direita.
De dia não te causará dano o sol,
nem a lua, de noite.
O Senhor te guardará de todo o mal,
ele guardará tua vida.
O Senhor te guardará, em tuas idas e vindas,
agora e para sempre.
I will lift up mine eyes unto the hills,
from whence cometh my help.
My help cometh from the Lord,
which made heaven and earth.
He will not suffer thy foot to be moved:
he that keepeth thee will not slumber.
Behold, he that keepeth Israel shall neither slumber nor sleep.
The Lord is thy keeper:
the Lord is thy shade upon thy right hand.
The sun shall not smite thee by day,
nor the moon by night.
The Lord shall preserve thee from all evil:
he shall preserve thy soul.
The Lord shall preserve thy going out and thy coming in
from this time forth, and even for evermore.
O Corvo
Edgar Allan Poe
Numa meia-noite agreste, quando eu lia, lento e triste,
Vagos, curiosos tomos de ciências ancestrais,
E já quase adormecia, ouvi o que parecia
O som de algúem que batia levemente a meus umbrais.
"Uma visita", eu me disse, "está batendo a meus umbrais.
É só isto, e nada mais."
Ah, que bem disso me lembro! Era no frio dezembro,
E o fogo, morrendo negro, urdia sombras desiguais.
Como eu qu'ria a madrugada, toda a noite aos livros dada
P'ra esquecer (em vão!) a amada, hoje entre hostes celestiais -
Essa cujo nome sabem as hostes celestiais,
Mas sem nome aqui jamais!
Como, a tremer frio e frouxo, cada reposteiro roxo
Me incutia, urdia estranhos terrores nunca antes tais!
Mas, a mim mesmo infundido força, eu ia repetindo,
"É uma visita pedindo entrada aqui em meus umbrais;
Uma visita tardia pede entrada em meus umbrais.
É só isto, e nada mais".
E, mais forte num instante, já nem tardo ou hesitante,
"Senhor", eu disse, "ou senhora, decerto me desculpais;
Mas eu ia adormecendo, quando viestes batendo,
Tão levemente batendo, batendo por meus umbrais,
Que mal ouvi..." E abri largos, franqueando-os, meus umbrais.
Noite, noite e nada mais.
A treva enorme fitando, fiquei perdido receando,
Dúbio e tais sonhos sonhando que os ninguém sonhou iguais.
Mas a noite era infinita, a paz profunda e maldita,
E a única palavra dita foi um nome cheio de ais -
Eu o disse, o nome dela, e o eco disse aos meus ais.
Isso só e nada mais.
Para dentro então volvendo, toda a alma em mim ardendo,
Não tardou que ouvisse novo som batendo mais e mais.
"Por certo", disse eu, "aquela bulha é na minha janela.
Vamos ver o que está nela, e o que são estes sinais."
Meu coração se distraía pesquisando estes sinais.
"É o vento, e nada mais."
Abri então a vidraça, e eis que, com muita negaça,
Entrou grave e nobre um corvo dos bons tempos ancestrais.
Não fez nenhum cumprimento, não parou nem um momento,
Mas com ar solene e lento pousou sobre os meus umbrais,
Num alvo busto de Atena que há por sobre meus umbrais,
Foi, pousou, e nada mais.
E esta ave estranha e escura fez sorrir minha amargura
Com o solene decoro de seus ares rituais.
"Tens o aspecto tosquiado", disse eu, "mas de nobre e ousado,
Ó velho corvo emigrado lá das trevas infernais!
Dize-me qual o teu nome lá nas trevas infernais."
Disse o corvo, "Nunca mais".
Pasmei de ouvir este raro pássaro falar tão claro,
Inda que pouco sentido tivessem palavras tais.
Mas deve ser concedido que ninguém terá havido
Que uma ave tenha tido pousada nos meus umbrais,
Ave ou bicho sobre o busto que há por sobre seus umbrais,
Com o nome "Nunca mais".
Mas o corvo, sobre o busto, nada mais dissera, augusto,
Que essa frase, qual se nela a alma lhe ficasse em ais.
Nem mais voz nem movimento fez, e eu, em meu pensamento
Perdido, murmurei lento, "Amigo, sonhos - mortais
Todos - todos já se foram. Amanhã também te vais".
Disse o corvo, "Nunca mais".
A alma súbito movida por frase tão bem cabida,
"Por certo", disse eu, "são estas vozes usuais,
Aprendeu-as de algum dono, que a desgraça e o abandono
Seguiram até que o entono da alma se quebrou em ais,
E o bordão de desesp'rança de seu canto cheio de ais
Era este "Nunca mais".
Mas, fazendo inda a ave escura sorrir a minha amargura,
Sentei-me defronte dela, do alvo busto e meus umbrais;
E, enterrado na cadeira, pensei de muita maneira
Que qu'ria esta ave agoureia dos maus tempos ancestrais,
Esta ave negra e agoureira dos maus tempos ancestrais,
Com aquele "Nunca mais".
Comigo isto discorrendo, mas nem sílaba dizendo
À ave que na minha alma cravava os olhos fatais,
Isto e mais ia cismando, a cabeça reclinando
No veludo onde a luz punha vagas sobras desiguais,
Naquele veludo onde ela, entre as sobras desiguais,
Reclinar-se-á nunca mais!
Fez-se então o ar mais denso, como cheio dum incenso
Que anjos dessem, cujos leves passos soam musicais.
"Maldito!", a mim disse, "deu-te Deus, por anjos concedeu-te
O esquecimento; valeu-te. Toma-o, esquece, com teus ais,
O nome da que não esqueces, e que faz esses teus ais!"
Disse o corvo, "Nunca mais".
"Profeta", disse eu, "profeta - ou demônio ou ave preta!
Fosse diabo ou tempestade quem te trouxe a meus umbrais,
A este luto e este degredo, a esta noite e este segredo,
A esta casa de ância e medo, dize a esta alma a quem atrais
Se há um bálsamo longínquo para esta alma a quem atrais!
Disse o corvo, "Nunca mais".
"Profeta", disse eu, "profeta - ou demônio ou ave preta!
Pelo Deus ante quem ambos somos fracos e mortais.
Dize a esta alma entristecida se no Éden de outra vida
Verá essa hoje perdida entre hostes celestiais,
Essa cujo nome sabem as hostes celestiais!"
Disse o corvo, "Nunca mais".
"Que esse grito nos aparte, ave ou diabo!", eu disse. "Parte!
Torna á noite e à tempestade! Torna às trevas infernais!
Não deixes pena que ateste a mentira que disseste!
Minha solidão me reste! Tira-te de meus umbrais!
Tira o vulto de meu peito e a sombra de meus umbrais!"
Disse o corvo, "Nunca mais".
E o corvo, na noite infinda, está ainda, está ainda
No alvo busto de Atena que há por sobre os meus umbrais.
Seu olhar tem a medonha cor de um demônio que sonha,
E a luz lança-lhe a tristonha sombra no chão há mais e mais,
Libertar-se-á... nunca mais!
Tradução de Fernando Pessoa
Edgar Allan Poe
Numa meia-noite agreste, quando eu lia, lento e triste,
Vagos, curiosos tomos de ciências ancestrais,
E já quase adormecia, ouvi o que parecia
O som de algúem que batia levemente a meus umbrais.
"Uma visita", eu me disse, "está batendo a meus umbrais.
É só isto, e nada mais."
Ah, que bem disso me lembro! Era no frio dezembro,
E o fogo, morrendo negro, urdia sombras desiguais.
Como eu qu'ria a madrugada, toda a noite aos livros dada
P'ra esquecer (em vão!) a amada, hoje entre hostes celestiais -
Essa cujo nome sabem as hostes celestiais,
Mas sem nome aqui jamais!
Como, a tremer frio e frouxo, cada reposteiro roxo
Me incutia, urdia estranhos terrores nunca antes tais!
Mas, a mim mesmo infundido força, eu ia repetindo,
"É uma visita pedindo entrada aqui em meus umbrais;
Uma visita tardia pede entrada em meus umbrais.
É só isto, e nada mais".
E, mais forte num instante, já nem tardo ou hesitante,
"Senhor", eu disse, "ou senhora, decerto me desculpais;
Mas eu ia adormecendo, quando viestes batendo,
Tão levemente batendo, batendo por meus umbrais,
Que mal ouvi..." E abri largos, franqueando-os, meus umbrais.
Noite, noite e nada mais.
A treva enorme fitando, fiquei perdido receando,
Dúbio e tais sonhos sonhando que os ninguém sonhou iguais.
Mas a noite era infinita, a paz profunda e maldita,
E a única palavra dita foi um nome cheio de ais -
Eu o disse, o nome dela, e o eco disse aos meus ais.
Isso só e nada mais.
Para dentro então volvendo, toda a alma em mim ardendo,
Não tardou que ouvisse novo som batendo mais e mais.
"Por certo", disse eu, "aquela bulha é na minha janela.
Vamos ver o que está nela, e o que são estes sinais."
Meu coração se distraía pesquisando estes sinais.
"É o vento, e nada mais."
Abri então a vidraça, e eis que, com muita negaça,
Entrou grave e nobre um corvo dos bons tempos ancestrais.
Não fez nenhum cumprimento, não parou nem um momento,
Mas com ar solene e lento pousou sobre os meus umbrais,
Num alvo busto de Atena que há por sobre meus umbrais,
Foi, pousou, e nada mais.
E esta ave estranha e escura fez sorrir minha amargura
Com o solene decoro de seus ares rituais.
"Tens o aspecto tosquiado", disse eu, "mas de nobre e ousado,
Ó velho corvo emigrado lá das trevas infernais!
Dize-me qual o teu nome lá nas trevas infernais."
Disse o corvo, "Nunca mais".
Pasmei de ouvir este raro pássaro falar tão claro,
Inda que pouco sentido tivessem palavras tais.
Mas deve ser concedido que ninguém terá havido
Que uma ave tenha tido pousada nos meus umbrais,
Ave ou bicho sobre o busto que há por sobre seus umbrais,
Com o nome "Nunca mais".
Mas o corvo, sobre o busto, nada mais dissera, augusto,
Que essa frase, qual se nela a alma lhe ficasse em ais.
Nem mais voz nem movimento fez, e eu, em meu pensamento
Perdido, murmurei lento, "Amigo, sonhos - mortais
Todos - todos já se foram. Amanhã também te vais".
Disse o corvo, "Nunca mais".
A alma súbito movida por frase tão bem cabida,
"Por certo", disse eu, "são estas vozes usuais,
Aprendeu-as de algum dono, que a desgraça e o abandono
Seguiram até que o entono da alma se quebrou em ais,
E o bordão de desesp'rança de seu canto cheio de ais
Era este "Nunca mais".
Mas, fazendo inda a ave escura sorrir a minha amargura,
Sentei-me defronte dela, do alvo busto e meus umbrais;
E, enterrado na cadeira, pensei de muita maneira
Que qu'ria esta ave agoureia dos maus tempos ancestrais,
Esta ave negra e agoureira dos maus tempos ancestrais,
Com aquele "Nunca mais".
Comigo isto discorrendo, mas nem sílaba dizendo
À ave que na minha alma cravava os olhos fatais,
Isto e mais ia cismando, a cabeça reclinando
No veludo onde a luz punha vagas sobras desiguais,
Naquele veludo onde ela, entre as sobras desiguais,
Reclinar-se-á nunca mais!
Fez-se então o ar mais denso, como cheio dum incenso
Que anjos dessem, cujos leves passos soam musicais.
"Maldito!", a mim disse, "deu-te Deus, por anjos concedeu-te
O esquecimento; valeu-te. Toma-o, esquece, com teus ais,
O nome da que não esqueces, e que faz esses teus ais!"
Disse o corvo, "Nunca mais".
"Profeta", disse eu, "profeta - ou demônio ou ave preta!
Fosse diabo ou tempestade quem te trouxe a meus umbrais,
A este luto e este degredo, a esta noite e este segredo,
A esta casa de ância e medo, dize a esta alma a quem atrais
Se há um bálsamo longínquo para esta alma a quem atrais!
Disse o corvo, "Nunca mais".
"Profeta", disse eu, "profeta - ou demônio ou ave preta!
Pelo Deus ante quem ambos somos fracos e mortais.
Dize a esta alma entristecida se no Éden de outra vida
Verá essa hoje perdida entre hostes celestiais,
Essa cujo nome sabem as hostes celestiais!"
Disse o corvo, "Nunca mais".
"Que esse grito nos aparte, ave ou diabo!", eu disse. "Parte!
Torna á noite e à tempestade! Torna às trevas infernais!
Não deixes pena que ateste a mentira que disseste!
Minha solidão me reste! Tira-te de meus umbrais!
Tira o vulto de meu peito e a sombra de meus umbrais!"
Disse o corvo, "Nunca mais".
E o corvo, na noite infinda, está ainda, está ainda
No alvo busto de Atena que há por sobre os meus umbrais.
Seu olhar tem a medonha cor de um demônio que sonha,
E a luz lança-lhe a tristonha sombra no chão há mais e mais,
Libertar-se-á... nunca mais!
Tradução de Fernando Pessoa
A mulher do mercador do rio: uma carta
No tempo em que meu cabelo caía reto sobre minha testa,
Eu brincava ao pé do portão da frente, colhendo flores.
Vínheis então montado em pernas de bambu, brincando de cavalo
Ou caminháveis em torno do meu assento, brincando com ameixas azuis.
Assim íamos vivendo na aldeia de Chokan:
Dois pequeninos seres, sem rancor nem suspeita.
Aos catorze desposei Meu Senhor, Vós.
Rir é que não pude, pois sou tímida.
Baixando a cabeça, contemplava a parede.
Ao chamarem por mim - mil vezes - nunca olhei para trás.
Aos quinze parei de fingir-me zangada
E desejei que meu pó se misturasse ao vosso
Para sempre e para sempre e para sempre.
Para que haveria de subir ao mirante?
Aos dezesseis viajastes
Fostes para a longínqua Ku-to-yen, à beira do rio dos remoinhos,
Cinco meses já vão que estais ausente.
Doloroso é o barulho dos macacos lá em cima.
Arrastastes os pés quando partistes.
Ao pé do portão, agora, cresceu musgo, diversas espécies de musgo,
Enraizados de mais para que possa arrancá-los!
As folhas caem cedo este ano, com o vento.
As borboletas aos pares já estão amarelas de agosto
Por cima da grama no jardim do poente.
Elas me magoam. Estou ficando mais velha.
Se voltardes pelos estreitos do Rio Kiang,
Mandai-me dizer a tempo
E viajarei o mais longe que possa ao vosso encontro
Pelo menos até a altura
de Cho-fu-sa.
RIHAKU
Cathay, 1915
Tradução de Mário Faustino
No tempo em que meu cabelo caía reto sobre minha testa,
Eu brincava ao pé do portão da frente, colhendo flores.
Vínheis então montado em pernas de bambu, brincando de cavalo
Ou caminháveis em torno do meu assento, brincando com ameixas azuis.
Assim íamos vivendo na aldeia de Chokan:
Dois pequeninos seres, sem rancor nem suspeita.
Aos catorze desposei Meu Senhor, Vós.
Rir é que não pude, pois sou tímida.
Baixando a cabeça, contemplava a parede.
Ao chamarem por mim - mil vezes - nunca olhei para trás.
Aos quinze parei de fingir-me zangada
E desejei que meu pó se misturasse ao vosso
Para sempre e para sempre e para sempre.
Para que haveria de subir ao mirante?
Aos dezesseis viajastes
Fostes para a longínqua Ku-to-yen, à beira do rio dos remoinhos,
Cinco meses já vão que estais ausente.
Doloroso é o barulho dos macacos lá em cima.
Arrastastes os pés quando partistes.
Ao pé do portão, agora, cresceu musgo, diversas espécies de musgo,
Enraizados de mais para que possa arrancá-los!
As folhas caem cedo este ano, com o vento.
As borboletas aos pares já estão amarelas de agosto
Por cima da grama no jardim do poente.
Elas me magoam. Estou ficando mais velha.
Se voltardes pelos estreitos do Rio Kiang,
Mandai-me dizer a tempo
E viajarei o mais longe que possa ao vosso encontro
Pelo menos até a altura
de Cho-fu-sa.
RIHAKU
Cathay, 1915
Tradução de Mário Faustino
Minhas leituras diárias na internet estão resumidas a poucos endereços. Meu jornal diário é o Estadão. Leitura semanal obrigatória eu encontro nos artigos de Olavo de Carvalho e em O Indivíduo. Tive a felicidade de encontrar mais doís ótimos sites: Digestivo Cultural e os artigos de João Mellão.
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